DIRETORES DE BAIXO CENTRO CONTAM A EXPERIÊNCIA DE FILMAR NAS NOITES DE BELO HORIZONTE; PESQUISADOR JOÃO LUIZ VIEIRA RELACIONA A CHANCHADA ÀS PONTES LATINO-AMERICANAS

DIRETORES DE BAIXO CENTRO CONTAM A EXPERIÊNCIA DE FILMAR NAS NOITES DE BELO HORIZONTE; PESQUISADOR JOÃO LUIZ VIEIRA RELACIONA A CHANCHADA ÀS PONTES LATINO-AMERICANAS

Um festival de cinema com tantas atividades simultâneas se amplifica para além das exibições de filmes ao promover bate-papos com o público sobre aquilo a que se assiste. Na 12a CineBH, tanto as Rodas de Conversa quanto os Diálogos Históricos valorizam, desde o nome das seções, o cara a cara com os espectadores, que lotam a Central do Cinema montada no Palácio das Artes. Pelos espaços é possível ouvir cineastas, pesquisadores e críticos sobre os trabalhos apresentados. Na noite de quarta-feira, os diretores Samuel Marotta e Ewerton Belico, responsáveis pelo longa-metragem Baixo Centro, participaram de uma conversa antes do filme – que teve a primeira exibição em Belo Horizonte na programação do evento. O encontro se tornou uma instigante prévia para o título, produzido em Minas e todo filmado na capital mineira.

A origem de Baixo Centro veio da vontade de Samuel Marotta em relacionar o enredo de um casal inserido na noite da cidade, a partir de convivências em bares, ruas, viadutos, becos e espaços urbanos dos mais variados. “Eu tinha feito dois filmes na minha cidade natal (Dores do Turvo, no interior mineiro) e precisava me reconectar com Belo Horizonte de alguma forma. Pensei, então, na história de dois jovens que se encontram pela noite e se envolvem com esse pedaço da cidade que é o centro”, contou Marotta. Ele convidou o amigo Ewerton Belico para a empreitada e, juntos, desenvolveram o roteiro, aprovado no programa Filme em Minas, o que viabilizou o projeto.

Inicialmente, Baixo Centro, vencedor da Mostra Aurora, em Tiradentes, este ano, seria protagonizado por atores não-profissionais. Porém, ao fazerem uma leitura mais detida do roteiro, Marotta e Belico perceberam que seria necessário trabalhar com figuras já inseridas na atuação. “As vozes dos personagens precisavam vir de atores e atrizes com experiência, foi algo que percebemos a partir da maneira como o roteiro se estruturou”, contou Belico.

A decisão teve como consequência o envelhecimento dos personagens (de adolescentes para pessoas na faixa dos 30-40 anos) e a proximidade da dupla de diretores com figuras do meio teatral belo-horizontino. Isso garantiu a presença de nomes como Alexandre de Sena, Cris Moreira, Bárbara Colen e Marcelo Souza e Silva. Com eles, o filme carrega a mistura de atores e atrizes inseridos no cotidiano noturno da região central de Belo Horizonte. “São personagens meio fantasmagóricos caminhando por um labirinto espacial e temporal, algo que estávamos buscando para o nosso olhar a esses espaços”, frisou Belico.

CHANCHADA

De uma produção contemporânea para o passado do cinema brasileiro: na quinta-feira, dia 30, o pesquisador João Luiz Vieira conduziu a primeira sessão (de três) dos Diálogos Históricos, no Cine Humberto Mauro, com um filme escolhido por ele para se relacionar à temática “Pontes Latino-Americanas”, que marca a CineBH em 2018. O longa selecionado por João Luiz foi Carnaval Atlântida, chanchada de 1952 dirigida por José Carlos Burle e protagonizada por Oscarito, Grande Otelo, Eliana Macedo, Dick Farney e José Lewgoy.

“Se formos falar de paródia, estamos falando de uma longa tradição do cinema brasileiro que vem desde o cinema silencioso”, destacou João Luiz logo após a exibição. Ele disse que sua escolha se deveu ao caráter de filme-manifesto de Carnaval Atlântida – que, apesar de se apresentar como uma típica chanchada (“único gênero verdadeiramente brasileiro”, segundo o pesquisador), mostra-se também uma crítica irônica às ambições industriais do cinema brasileiro de estúdio entre os anos 1940 e 1950.

 “A Vera Cruz tinha sido fundada em São Paulo em 1949 tentando fazer um cinema industrial que respondesse ao tom popularesco das chanchadas cariocas e que tivesse a consciência de uma qualidade técnica, diversidade temática e referências a produções estrangeiras, principalmente de Hollywood”, disse João Luiz. “Em 1952, Carnaval Atlântida surgiu trazendo respostas a alguns dilemas daquele momento e parodiando essas ambições de grandes espetáculos da Vera Cruz, que tendia a menosprezar essas comédias”. A noção de “filme-manifesto” defendida pelo pesquisador já começava no título, que trazia o nome do estúdio vinculado ao Carnaval, algo ainda hoje inédito.

 Caracterizando as pontes intercontinentais, o filme tem no elenco a dançarina cubana Maria Antonieta Pons, interpretando um tipo de versão de si mesma, que passa toda a narrativa tentando seduzir o professor interpretado por Oscarito. “A Maria Antonieta veio ao Brasil para fazer só esse filme e nunca mais fez nada por aqui. Por que isso aconteceu? É algo muito interessante de pensar”, provocou João Luiz, que destacou as cenas musicais de Carnaval Atlântida em que a rumba (dança típica de Cuba) era alçada na mesma categoria das manifestações de folia e de referências afro que se vê em outros momentos do filme. “José Carlos Burle detestava Hollywood e isso aparece no filme, através dessa forma de abordagem da cultura de outros países”, disse João Luiz.

 COPRODUÇÕES

Sobre as presenças latino-americanas nos filmes, um dos pontos centrais das discussões deste ano na CineBH, o Programa de Formação Audiovisual promoveu, na tarde de quinta-feira, o bate-papo “Experiências em coprodução internacional na América Latina”. No centro da conversa estavam a chilena Catalina Vergara, a argentina Constanza Sanz Palacios e o brasileiro Henry Galsky, todos responsáveis por iniciativas de coprodução em seus respectivos países. O tom do encontro ficou na percepção de que a união entre dois ou mais produtores na realização de um filme intercontinental depende de fatores variados, sejam econômicos, estéticos ou por afinidades de aproximação.

 Constanza Sanz Palacios, por exemplo, disse que busca parcerias a partir de estruturas “mais artesanais” de produção. “Um coprodutor sempre tem todo o interesse de se associar a realizadores que ele admira ou acompanha em festivais ou nos circuitos. No meu caso, gosto de fazer parte da construção de filmes mais autorais”, disse ela. Um exemplo recente foi sua participação em Exercícios de Memória, longa-metragem de Paz Encina que se configurou numa parceria entre Paraguai e Argentina. Ela também contou que outra forma de se associar está nas possibilidades de projeção internacional de determinados projetos, especialmente de nomes que já tenham penetração nos mercados mundiais de distribuição e exibição. Já para Catalina Vergara, da Globo Rojo Films, a experiência no Chile depende de uma série de fundos de investimento audiovisual – apresentados por ela durante o debate – que são potencializados por parcerias com outros países.

 Coordenador de projetos e conteúdo do Canal Brasil, Henry Galsky comentou a ambição de alguns produtores brasileiros em buscar determinadas associações fora do país quando ainda há dificuldade de diálogo entre estados. “A gente tem que ter consciência de que o Brasil é uma exceção dentro da América Latina, um país ainda muito autocentrado, que não constrói diálogos dentro de seu território. É necessário descentralizar”, afirmou. E ironizou: “Estamos ainda esperando uma produção do Espírito Santo com o Acre”.

 TODA PROGRAMAÇÃO É OFERECIDA GRATUITAMENTE AO PÚBLICO.