Mostra celebra 50 anos de “Terra em Transe” com sessão comentada por Ismail Xavier e Ivana Bentes

O sábado na CineBH terá ainda exibição de “Menino Maluquinho – O Filme” e “ET – O Extraterrestre” na Praça da Estação, retrospectiva da produtora Gesto de Cinema e duas pré-estreias nacionais

O sábado na 11ª Cine BH – Mostra de Cinema de Belo Horizonte vai ser de celebração, com a sessão especial dedicada aos 50 anos de lançamento de “Terra em Transe”, de Glauber Rocha. Um dos filmes mais controversos e conhecidos do cinema brasileiro foi lançado em 1967, na ressaca do golpe civil-militar de 1964. Fazendo uma alegoria do Brasil daquele momento, Glauber realizou um trabalho perturbador, que chega a 2017 intacto na sua urgência e relevância em todos os sentidos.

A sessão será no Cine Humberto Mauro, às 16h30, vai apresentar uma cópia do filme restaurada em DCP. Em seguida, haverá bate-papo com Ismail Xavier (USP) e Ivana Bentes (UFRJ), considerados os dois nomes mais importantes nas pesquisas sobre a obra de Glauber. A mediação será de Marcelo Miranda, crítico e um dos curadores da CineBH.

Em se tratando de clássicos, o sábado da mostra tem mais três atrações imperdíveis. Na Praça da Estação, às 18 horas, passa “Menino Maluquinho – O Filme” (1995), de Helvécio Ratton, precedido do curta-metragem “A Velha a Fiar” (1964), de Humberto Mauro. Em seguida, no mesmo local, público poderá ver na tela grande “ET – O Extraterrestre” (1982), de Steven Spielberg, às 20 horas. Exatamente nesse mesmo horário, no Teatro Sesiminas, tem Cine-Concerto do filme “O Garoto” (1921), de Charles Chaplin, que contará com trilha sonora executada ao vivo pela Orquestra de Câmara do Sesiminas.

RETROSPECTIVAS

Às 14 horas, no Cine Humberto Mauro, acontece a última sessão dos Diálogos Históricos, com a presença do cineasta homenageado Pierre Léon. O filme, escolhido pelo diretor francês, será “O Caminhão” (1977), de Marguerite Duras, seguido de uma conversa com Léon.

Ainda de Pierre Léon, o público da mostra confere mais quatro filmes na retrospectiva de sua obra: “Li per Li” (1994), às 17h, no Cine 104; o curta-metragem “Na Barba de Ivan” (2009), seguido do longa “Outubro” (2006), no Cine Humberto Mauro; e “Dois Rémi, Dois” (2015), no MIS Cine Santa Tereza.

A outra retrospectiva do dia é a sessão de curtas dedicada à produtora paranaense Gesto de Cinema, às 21 horas, no Cine 104. Serão exibidos cinco trabalhos desse coletivo, que se destaca pela abordagem singular de temáticas em discussão no atual cenário brasileiro e por um apuro estético cuidadoso. Os títulos são “Pai aos 15”, “Pavão sem Cores”, “Paixão Nacional”, “O Mundo Estratifica o Corpo se Desloca” e “Luiza”.

Na Mostra Contemporânea, o sábado reserva duas pré-estreias nacionais: às 18h30, no MIS Cine Santa Tereza, tem “Males sem Terra”, filme do Rio de Janeiro com direção de João Arthur e que se insere na temática central da mostra esse ano, o Cinema de Urgência. Às 21h30, no Cine Humberto Mauro, é a vez de “Three”, filme policial de Hong Kong com direção de Johnnie To, um dos principais autores do cinema contemporâneo.

PROGRAMAÇÃO PARA TODA A FAMÍLIA E GOSTOS

Nem só de cinema é feita a CineBH. O evento conta também com diversas apresentações artísticas, a partir das 11 horas, com o show Fronteira, apresentado por Fabrício Conde Trio, na Praça Duque de Caxias, um dos locais mais emblemáticos e que deram origem à mostra. No mesmo local, às 15 horas, começa o show Brincantorias, pelo grupo Canta Vento. Ali pertinho, no MIS Santa Tereza, pessoas de todas as idades estão convidadas para a exibição de “A família Dionti”, uma bela história sobre um pai e seus dois filhos adolescentes (sessão com acessibilidade: audiodescrição, libras e legendas audiodescritivas).

COPRODUÇÃO

No último dia de programação do Brasil CineMundi, três painéis estão agendados, dentro do propósito de afinar as relações entre os participantes, todos no Museu de Artes e Ofícios. Às 11 horas, tem o Encontro com Programadores de Festivais Internacionais, no qual representantes da Semana da Crítica (Cannes), Visions Du Réel (Suíça) e Festival de Amsterdam (Holanda) vão apresentar relatos, experiências e o perfil de cada evento, visando estabelecer uma rede de contatos e conexões.

Às 16 horas, Inke Van Loocke, coordenadora do CineMart & Rotterdam Lab, do Festival de Roterdã, fala sobre várias formas de coprodução e aproximação com a Holanda no intuito de viabilizar realizações audiovisuais. Logo em seguida, às 17 horas, Arne Kohlweyer, coordenador do programa Script Station da Berlinate Talents, conversa sobre a plataforma de networking que reúne anualmente 250 cineastas durante o Festival de Berlim, para apresentarem e aperfeiçoarem seus projetos.

PROGRAMAÇÃO ARTÍSTICA

Às 23 horas, o show será do Duo Finlândia formado por um brasileiro – Raphael Evangelista e um argentino Mauricio Candussi. O duo usa elementos da música latino-americana, especialmente dos seus países de origem, misturados a sons contemporâneos. Finlândia acontece em ambientes eletrônicos com instrumentos acústicos como piano, acordeão e violoncelo, criando sets específicos em cada performance e passeando por ritmos como milonga, baião, cúmbia, chacarera, huayno, saya, candomblé, tango e outros. Para encerrar à programação noturna, à 01 horas, o público poderá se jogar na pista com o dançante show Brascubazz, que resgata os bons tempos de Havana Velha. A mistura entre temas clássicos como Danzón, Son, Chachacha, Guajira e expressões como o Choro, o Baião, o Afoxé e o Maracatu, traz à sonoridade da banda uma característica rítmica, harmônica e melódica singular e de muita força, unindo a cultura brasileira e cubana em formato latinjazz.

COBERTURA DE SEXTA - CINEMA DE URGÊNCIA

Na manhã de sexta-feira, um grupo de cineastas e pesquisadores se reuniu no Cine Humberto Mauro para debater a temática desse ano da CineBH. Os diretores Douglas Duarte e Miguel Antunes Ramos, a pesquisadora e curadora Paula Kimo e o crítico e curador Francis Vogner conversaram sobre Cinema de Urgência: métodos, impasses, intervenções. A proposta foi a de levantar a questão: como e quando, diante de uma crise generalizada, empunhar a câmera e ir às ruas documentar um momento histórico?

Para Douglas Duarte, o estopim foram os pedidos de impeachment sofridos pela presidente Dilma Rousseff no primeiro ano de seu segundo mandato. Ele foi a Brasília com o objetivo de documentar o dia a dia do Congresso Nacional, mas logo percebeu que o processo de derrubada da governante seguiria adiante. “Mudamos completamente os nossos planos. Íamos ficar algumas semanas em Brasília, mas ficamos por vários meses, até o fim do impeachment”, contou ele. Douglas prepara um documentário sobre o período, mas ainda está em crise no trato com seu próprio material.

Miguel Ramos, por outro lado, se valeu de imagens da grande mídia e da mídia independente para realizar, junto com Julia Murat, “Operações de Garantia da Lei e da Ordem”, exibido na CineBH. Ele contou que o interesse era “narrativizar as formas como a imprensa trata os movimentos políticos”. Para o documentário, ele e Julia colheram centenas de horas de material, para uma montagem que faz paralelos entre vários tipos de noticiário – da TV Globo às filmagens por celular espalhadas nas redes sociais.

Francis Vogner completou que a urgência dos temas na criação de cinema nem sempre garante que as realizações darão conta das complexidades do momento. Paula Kimo exemplificou com cenas de “Na Missão, com Kadu”, curta-metragem que registra a repressão da Polícia Militar de Minas contra manifestantes que reivindicavam moradia. “Eu chamo de filme em regime de urgência, porque existe um corpo-câmera que se mistura com o material registrado. A pessoa que filma é parte do acontecimento, e ela usa a câmera como arma de militância”, destacou.

PROGRAMAÇÃO SEGUE ATÉ DOMINGO

O último dia de CineBH será marcado pela realização de shows gratuitos para adultos e crianças, exibição de filmes em estreias e pré-estreias. O destaque do dia será o anúncio dos projetos selecionados pelo 8º Brasil CineMundi, às 19h30, no Teatro Sesiminas, seguido do Cine-Concerto  “O Mágico de Oz” (1939), acompanhada da execução ao vivo das músicas do álbum “The Dark Side of the Moon” (1973), da banda inglesa Pink Floyd.