NA CINEBH, DIRETOR EDGARD NAVARRO SE DIZ “CINEMÊRO” E ATACA MÉTODOS INDUSTRIAIS DE PRODUÇÃO NO BRASIL; FILME ARGENTINO PAJARITO GÓMEZ SURPREENDE PÚBLICO COM ABORDAGEM ÁCIDA SOBRE A CULTURA DE MASSAS LATINA

Debates e rodas de conversa têm reunido diversos espectadores para se aprofundarem nas discussões sobre cinema durante o festival na capital mineira, enquanto profissionais do audiovisual presentes no Brasil CineMundi seguem participando de encontros e apresentações sobre mecanismos de incentivo e coprodução com outros países

O baiano Edgard Navarro foi uma das mais destacadas atrações da 12a CineBH nesta quinta-feira. Realizador de Abaixo a Gravidade, longa-metragem exibido na Mostra Contemporânea, Navarro participou de uma Roda de Conversa no começo da noite, no Cine-Lounge montado no Palácio das Artes, e pôs à mostra toda a sua verve irônica e anárquica. Falando sobre arte, política e estética, o cineasta respondeu a perguntas sobre a feitura de seu mais recente trabalho e especialmente a respeito de suas ideias de criação e expressão artística.

Navarro, um dos mais inventivos artistas brasileiros, autor do cultuado Superoutro (1989) e de dois longas-metragens anteriores (Eu me Lembro, 2006, e O Homem que não Dormia, 2011), mostrou-se incomodado com o atual status da figura do diretor de cinema no país. “Essa ideia de ‘cineasta’ é uma coisa que eu vou renegar, não quero fazer parte disso, é uma coisa burguesa, uma palavra pomposa e metida a besta”, disse.

Para Navarro, todo o maquinário de produção, equipes grandes e exigências burocráticas de orçamento e de leis e editais sabotam a espontaneidade que ele busca imprimir em seus trabalhos. “Chega, cansei disso! Agora quero ser é ‘cinemêro’, como eu era lá no começo”, afirmou, em referência a seus primeiros trabalhos com película Super-8, ainda nos anos 1980.

 Apesar das ressalvas, Navarro se mostrou à vontade em falar de Abaixo a Gravidade como um filme importante no desenvolvimento de sua obra. Ele reconheceu uma continuidade entre as ideias de Superoutro que atravessaram tudo que fez a seguir. “É uma poética, né?”, comentou. Perguntado sobre como pensava a cidade de Salvador nesses 30 anos que separam Superoutro e Abaixo a Gravidade, Navarro não titubeou: “Salvador ficou pior. Não como cidade exatamente, mas como lugar de circulação, de convivência. Está muito mais violenta, mais racista, mais homofóbica, mais babaca”.

 Ao seu lado, a montadora Cristina Amaral elogiou as posturas artísticas de Navarro e o trabalho conjunto que fizeram em Abaixo a Gravidade. “Eu recebia as imagens que ele me mandava e precisa me embrenhar nelas, me impregnar, elas chegavam com um tipo de energia, não eram apenas cenas em movimento”, destacou Cristina, veterana em trabalhar com nomes de intensa expressividade na produção brasileira, casos de Carlos Reichenbach, Andrea Tonacci e Carlos Adriano. “São artistas com quem me identifico e por isso trabalho com eles, várias vezes”.

 DIÁLOGO ARGENTINO

Na sexta-feira, os bate-papos seguiram como espaço privilegiado de reflexão sobre cinema e arte na CineBH. À tarde, no Cine Humberto Mauro, o crítico argentino Roger Koza apresentou e comentou mais uma sessão dos Diálogos Históricos, com um filme escolhido por ele. O drama Pajarito Gómez – Uma Vida Feliz (1965) causou grande impressão na plateia, ao apresentar a história de um cantor manipulado pela indústria fonográfica para fazer sucesso junto às camadas populares. Koza, citando as Pontes Latino-Americanas que são a temática do evento este ano, relacionou as escolhas do diretor Rodolfo Kuhn a uma modernidade específica da América Latina que se mostra transfigurada a partir de uma herança cinéfila europeia.

 “A modernidade não é uma invenção latino-americana, mas uma exportação intelectual da Europa. Isso não significa que não podemos ser modernos, e sim nos coloca a questão de como nos apropriar da forma moderna na América Latina”, comentou. Koza disse que, na Argentina de hoje, inexiste uma tradição moderna de cinema, com raras exceções – uma delas, segundo ele, é Mariano Llinás, cujo novo trabalho, La Flor, está na programação da CineBH, como parte da homenagem à produtora El Pampero Cine.

Como principal discussão levantada por Pajarito Gómez, Koza apontou a dicotomia entre cultura de massas e alta cultura, algo ainda hoje em voga nas análises sobre arte. “É um filme intempestivo e subversivo nessa abordagem. Ele se torna parte do problema, pois leva para dentro da sua estrutura toda a questão em torno do que seria uma ‘arte de massa’”, disse. Pajarito Gómez aponta as questões como intrínsecas às relações entre os personagens e à forma expressiva com que retrata a trajetória do personagem-título. Para Koza, o filme coloca explicitamente a dúvida: como pensar o popular? “Esse problema traz outro problema com ele: a falsa divisão entre o cinema de arte e o cinema dito de entretenimento. Nessa tensão, Pajarito Gómez está pensando junto com o espectador”.

 O que torna o filme de Kuhn ainda relevante é justamente conter complexidades como estas num trabalho feito há 50 anos atrás e com uma forma cinematográfica ainda vigorosa e provocativa. “Tudo do filme reverbera em toda a cultura do cinema contemporâneo atual. Ainda não resolvemos esse nó”, completou Roger Koza.

 PARCERIAS

A sexta-feira também foi dedicada a atividades do 9o Brasil CineMundi, programa voltado ao mercado e às coproduções internacionais que acontece durante a CineBH. Além dos encontros de realizadores e produtores com os mais de 20 convidados estrangeiros no evento, aconteceram duas mesas com propósito de esclarecer aos participantes formas de acesso a mercados externos.

Uma das mesas tratou de experiências na França, com representantes de produtoras que apresentaram possibilidades de parcerias e os principais desafios de se firmar parcerias do Brasil com o país europeu. A outra, de pegada similar, se estendeu para toda a Europa, reunindo Annabelle Aramburu, consultora da Espanha, e Rosanna Seregni, produtora da Itália, para esclarecer diversos pontos a respeito de mercados continentais, redes de realização e programas de apoio, circulação e exibição.

Participam do Brasil CineMundi dezenas de profissionais brasileiros do audiovisual, que trazem seus projetos para serem apresentados aos produtores em rodadas de conversa e de negócios. É uma forma fluida e intimista de contato entre esses profissionais com o que de mais destacado há fora do Brasil, com a possibilidade de que, daqui, saiam novas realizações.

TODA PROGRAMAÇÃO É OFERECIDA GRATUITAMENTE AO PÚBLICO.