AS MUITAS VIAGENS DE UM MUNDO EM EBULIÇÃO

Entre a violência e o afeto, a observação e a intervenção, o pertencimento e o deslocamento: os equilíbrios dessas questões estão na centralidade dos cinco filmes da Mostra Contemporânea em 2021. Todos títulos de aproximação brutal com as contradições, inquietações e constrangimentos desses ainda primeiros anos do século 21, em alguns casos retornando ao passado ou recorrendo às distopias para então refletir o que se passa num presente cada vez mais geopoliticamente complexo e perturbador. Tanto as fronteiras íntimas quanto as territoriais, sociais e econômicas ganham, nas lentes desses filmes, olhares arrojados e de contundência que tanto nos chocam quanto nos comovem.

Que se pense, por exemplo, num veterano como o documentarista israelense AviMograbi. Em seu Os Primeiros 54 Anos: Pequeno Manual para Ocupação Militar, o cineasta apresenta, ele próprio olho no olho do espectador, a sequência de depoimentos de soldados do Exército de Israel descrevendo, em detalhes, de que forma agiram para ocupar territórios palestinos ao longo dos últimos 50 anos. Utilizando registros do projeto BreakingtheSilence(“quebrando o silêncio”), Mograbi expõe os horrores institucionalizados pelo Estado desde 1967, numa sequência de 38 homens que se revelam indivíduos a serviço de um poderio muito maior e incontrolável. Com frontalidade habitual, Mograbi traz à tona e em detalhes a feiura de uma política que segue vitimando dezenas de pessoas nas regiões do Oriente Médio.

Os traumas de conflitos internos e muito específicos a determinados países acabam por se apresentar universais quando os filmes se aproximam da intimidade de personagens diretamente afetados. Um Rifle e uma Bolsa, de Isabella Rinaldi, Cristina Hanes eAryaRothe, acompanha uma família na Índia que, a princípio, parece só seguir seus dias trabalhando e vivendo. Até que o panorama se abre e é revelado o contexto de que aquelas pessoas são estigmatizadas pelo Estado por terem sido militantesnaxalitas – cujo propósito, desde o final dos anos 1960, é retomar as forças do antigo Partido Comunista da Índia. Tratados pelos governos indianos como forte ameaça interna, os naxalitas, mesmo depois de se afastarem da militância, geralmente são isolados da comunidade e sofrem de preconceitos diversos. No filme, a família em questão é acompanhada, ação por ação, nas dificuldades diversas de uma tentativa de vida normal, sempre travada por um passado recente que insiste em querer expurgá-la.

De expurgo também trata Nas Sombras, produção da Turquia dirigida por ErdemTepegöz, que parece avançar mais intensamente na distopia de histórias como 1984, de George Orwell, ou nos conceitos de “vigiar e punir” de Michel Foucault. Num tempo indefinido, as pessoas trabalham em minas abandonadas sob estreita vigilância de algum poder fortemente estabelecido, que constantemente exige o “retorno às máquinas” – que significa, na prática, a escravização do corpo e da mente. Como é praxe nesse tipo de narrativa, um indivíduo (NumanAcar, ator internacionalmente conhecido como o líder talibã Haqqani na série de TV Homeland) questiona o sistema e desconfia de que aquele cenário não faz sentido. Sua rebeldia, potencialmente o início de uma revolução, será brutalmente perseguida pelas misteriosas forças de dominação daquele espaço. Entre a ficção científica cyberpunke o horror, o filme amplifica a reflexão sobre mandos e desmandos num planeta cada vez mais globalizado e, em certa medida, faza ilustração de como todos nós somos movidos por forças que não dominamos (por exemplo: os algoritmos, comandados pelos grandes conglomerados de comunicação que, quando questionados, escondem suas reais intenções).

Num outro aspecto do olhar para o indivíduo, Na Casa do Diretor, do inglês Marc Isaacs, é uma tragicomédia sobre as desventuras de um cineasta que simplesmente não consegue emplacar seus projetos. Avisado por sua produtora de que os financiadores estão mais interessados em sensacionalismo e histórias de crimes do que em dramas humanos, Isaacs vira a câmera para a própria casa e forma uma estranhíssima e fascinante comunidade de desgarrados sociais: um sem-teto eslovaco, uma faxineira colombiana, um inglês bonachão e um vizinho paquistanês. Disso surge um inesperado reality show, sempre no limite entre o documentário e a encenação (como qualquer reality show, aliás), no qual sobressaemos tipos humanos que tanto atraem o diretor quanto repelem quem poderia financiar seus filmes.

Por fim, o épico intimista Eu Ando Sobre as Águas traz de volta um nome recorrente na CineBH, o norte-americano (de mãe jamaicana e pai iraniano) Khalik Allah, de quem a Mostra já exibiu Field Niggas (2015) e Black Mother (2018). Elevolta à mesma esquina do Harlem, em Nova York, onde filmou boa parte de Field Niggas, e reencontra Frenchie, o imigrante haitiano que ele acreditava ter desaparecido. Allah faz um mergulho afetivo e profundo de mais de três horas de duração na vivência de moradores de rua do Harlem, ao mesmo tempo em que trata de si mesmo, sua relação com pessoas próximas (os pais, a namorada) e de que maneira tudo isso se relaciona ao filme que está sendo feito. Visualmente herdeiro de nomes importantes do undergroundnorte-americano, como Jonas Mekas e John Cassavetes, Allah apresenta aqui uma investigação ampla, cuidadosa e hipnotizante de suas angústias, transfiguradas numa construção poética singular.

Por ocasião da masterclass “Roteiro e processos de criação”, evento realizado em conjunto com o encontro de coprodução Brasil CineMundi, a mostra contemporânea internacional traz ainda dois filmes do cineasta uruguaio Federico Veiroj, um dos maiores talentos da nova geração de realizadores latino-americanos. Serão exibidos “A vida útil – Um conto de cinema”, filme que tem como cenário a Cinemateca Uruguaia, e “Vida de doleiro”, drama policial que conta com participação especial do ator brasileiro Paulo Betti, e que fala sobre corrupção nos tempos da ditadura militar, um tema que não poderia ser mais pertinente.

São várias as viagens propostas pelo recorte estrangeiro da CineBH este ano, tanto em termos territoriais quanto estéticos. Tal panorama diz bastante do atual cenário de produção, inclusive suas dificuldades e desafios, levando para dentro da expressão de cada realizador e realizadora as várias maneiras de modelar discursos num mundo que constantemente nos desafia a saber para que lado ir ou não ir. Venham conosco, pois.

Marcelo Miranda

Francis Vogner dos Reis

Pedro Butcher

Curadores