O PODER OCULTO SE REVELA

Se o sonho de todo poder é ver sem ser visto,o cinema, máquina capaz de materializar sonhos e pesadelos, foi, ao longo de sua história, espelho e máquina de produção dos aparatos de vigilância e poder do capitalismo industrial.Sejam por forças do Estado ou por grupos e megacorporações privadas, os esforços de apropriação do indivíduo de homogeneização de comportamentos e da eliminação das diferenças são parte intrínseca da históriado capitalismo, das mais variadas formas. Como grande invenção moderna do século 20, o cinema absorveu esse imaginário ao mesmo tempo em que contribuiu para sua produção e expansão – afinal, a câmera se tornou uma ferramenta incontornável do “vigiar e punir”, e também a possibilidade de sua subversão.

A Mostra Diálogos Históricos em 2021 se relaciona à Temática Central da 15ª CineBH,Cinema e Vigilância, buscando justamente na história do cinema alguns instantes em que as ações de controle foram transformadas em elementos expressivos por cineastas atentos ao que acontecia em seus contextos.Todas as sessões são acompanhadas por um bate-papo entre curadores da CineBH e críticos ou pesquisadores convidados para falarem sobre o filme em questão.

Iniciamos no cinema silencioso, com Aelita – Rainha de Marte(1924), dirigido por YakovProtazanov e considerada uma obra pioneira da ficçãocientífica na União Soviética. Um dos filmes mais populares de seu tempo, Aelita se alinha às obras que tinham como fundo apropaganda da Revolução Russa de 1917. Nele, o planeta Marte é dominado por um regime de opressão aos trabalhadores. Umpersonagem terráqueo (e burguês), que acredita estar sendo observado do espaço, sentindo-se inadequado ao regime socialista, decide viajar a Marte para encontrar a mulher que ele acredita estar vigiando seus passos na Terra, e que pode ser seu grande amor.Com raros elementos sensuais para os filmes da época e um cenário arrojado, Aelitaserviu de influência a muitos realizadores expressionistas da Alemanha, graças ao visual arrebatador, às linhas de ângulos inusitados dos cenários, à imaginação sem limites de criaturas e maquinários até então inexistentes e ao misto de fantasia e sonho.

O filme seguinte da Mostra Diálogos Históricos vem justamente de uma referência do Expressionismo alemão, o diretor Fritz Lang. Em 1933, Lang dirigiu O Testamento do Dr. Mabuse, sua segunda incursão no universo de um personagem criado em 1922 em Mabuse, o Jogador. Nessa sequência, o diretor volta a retratar um dos maiores personagens do cinema ocidental, figura monstruosa e maquiavélica cuja maior desejo é justamente dominar sem ser visto. Para isso, Mabuse cria todo tipo de conspiração e manipulação e promove labirintos mentais perturbadores para aprisionar as vítimas de seus ataques. Grande metáfora do nazifascismo já ascendente na época (Hitler, inclusive, subiu ao poder no mesmo ano de lançamento do filme), O Testamento do Dr.Mabuseilustra a ideia de que o mal não se acumula num único indivíduo, e sim ganha capilaridade quanto mais pessoas adotam suas práticas. Mabuse não é apenas um antagonista: ele é uma ideia de mal. Em 1960, Lang faria uma terceira parte, ainda mais explícita desde o título, Os Mil Olhos do Dr.Mabuse– no que viria a ser seu filme derradeiro.

Fechando a trinca deste ano, um exemplar brasileiro singular: o thriller carioca O 5º Poder, dirigido por um italiano (Alberto Pieralisi) e produzido por um espanhol (Carlos Pedregal). Lançado no Festival de Berlim em 1963, o filme desapareceu após a exibição na Alemanha, tendo os negativos originais destruídos. A produção alegou ter sido censurada e perseguida por conta do teor provocativodo filme. Quatro décadas depois, encontrou-se uma cópia em condições regulares,mas possível de ser salva e hoje em circulação (inclusive com legendas em alemão).

Otimingdo filme é impressionante. Um ano antes do golpe militar de 1964, que implantou uma ditadura brutal, e 25 anos antes da obra-prima Eles Vivem, de John Carpenter, O 5º Podermostra a grande conspiração de um país desenvolvido (nunca identificado) para roubar as chamadas “riquezas naturais” do Brasil. O plano é mirabolante: agentes dessa potência gringa instalam secretamente antenas por todo o país para transmitir mensagens subliminares através da televisão.O intuito é levar apopulação à loucura e promover o caos – possibilitando, assim, um grande golpe e a intervenção estrangeira. Um casal não afetado pelas ondas magnéticas (Oswaldo Loureiro e uma já famosa Eva Wilma) começa a investigar o fenômeno e é perseguido pelas forças ocultas que querem se manter secretas. Cheio de cenas de suspense e ação filmadas em cartões-postais do Rio de Janeiro, O 5º Poder tem novos contornos hoje, não só por antecipar muito do que aconteceu ao Brasil naquele período, mas por também ser uma forte alegoria (em retrospecto) do que acontece atualmente no país.

Em todos os três filmes, o espectador se sentirá exasperado, inquieto, com a sensação de ser olhado e acompanhado por algum tipo de vigilância fora de seu controle. Não se iluda: neste exato instante, você está, sim, sendo monitorado por algum aparato eletrônico. O cinema, raramente inocente, sempre soube tratar disso.

Marcelo Miranda

Francis Vogner dos Reis

Pedro Butcher

Curadores