MUITAS PESSOAS COM AMOR – A REINVENÇÃO DOS POSSÍVEIS NAS REDES E NAS TELAS

Desde março deste complexo ano de 2020, artistas de todas as linguagens estão sentindo o chão esfarelar embaixo dos seus pés. Alguns mais, outros menos, afinal, as condições não são as mesmas para todes. Como se não bastasse o imenso desmonte da produção artística no Brasil, a pandemia da covid-19 veio acirrar ainda mais as desigualdades e evidenciar o quanto estamos institucionalmente desassistidos e desarticulados. No caso das artes vivas, que têm como uma de suas premissas básicas a relação de convívio presencial entre artistas e público, a sensação em um primeiro momento foi de perda total.

No entanto, rapidamente, alguns realizadores de teatro começaram a buscar saídas, explorando caminhos antes pouco desbravados. Não demorou para que artistas se dessem conta da possibilidade de experimentar recursos audiovisuais com suas simples câmeras de computadores e celulares, e de usar a internet, com seus aplicativos de reunião e redes sociais, para chegar aos espectadores. Inventaram, assim, espaços provisórios de convívio remoto para experimentação e fruição artística. No repertório, os saberes do teatro e muito amor no coração.

Foi neste contexto que surgiu, como ação emergencial, o Pandêmica Coletivo Temporário de Criação, uma aglomeração online de artistas fazendo teatro ao vivo “até quando isso tudo durar” – como diz o site do grupo. Conduzido por Juracy de Oliveira, ator e diretor cearense radicado no Rio de Janeiro, o grupo tem se dedicado à pesquisa em criações remotas pelo Zoom desde o início do período de isolamento social no Brasil. Uma das principais características dessa iniciativa pioneira é a presença de artistas de teatro de diversas cidades do país, de diferentes gerações e lugares sociais. É inegável que um campo de investigação de linguagem se abriu no encontro entre o teatro, o audiovisual e o meio virtual. O Pandêmica Coletivo é um dos pioneiros na abertura dessa trilha. 

Não é de hoje que o audiovisual faz parte das estratégias dramatúrgicas das artes cênicas: desde que existe cinema, existe relação entre teatro e cinema. O teatro documentário do dramaturgo e encenador alemão Erwin Piscatornos anos 1920 é o exemplo mais evidente na narrativa historiográfica eurocentrada que conhecemos. Não foi diferente com o rádio,nem com a televisão. O teatro é uma arte que come de tudo. A interação com a internet também não é novidade, mas nem de longe imaginávamos que um dia chegaria a ter esse protagonismo absoluto – mesmo que temporário.

Até agora, o grupo já tem diversos trabalhos em seu repertório, composto de espetáculos online, mostras coletivas e ações voltadas à reflexão e ao compartilhamento de saberes. Além disso, o Pandêmica também desenvolveu projetos curatoriais, como a mostra Orgulhe e o Festival Às Escuras, envolvendo profissionais de inquestionável relevância ecolocando em cena, com eficientes ações de mediação, o trabalho de artistas que geralmente ficam à margem das grandes programações culturais.

Para a Mostra Temática, trouxemos dois trabalhos do coletivoque se destacam tanto pela relevância temática e poética quanto pela abertura de reflexão sobre a interação entre linguagens.

12 Pessoas com Raiva

12 Pessoas com Raiva, primeiro trabalho do grupo, que abre a CineBH, é uma adaptação de uma conhecida peça do dramaturgo e roteirista estadunidense Reginald Rose. TwelveAngryMen teve diferentes versões cinematográficas, lançadas no Brasil com o título DozeHomens e uma Sentença. Além do diálogo com o cinema, a peça também remete aos anos dourados da televisão, pois o autor era muito conhecido na época do teleteatro, um fenômeno de audiência tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil. A adaptação de Juracy de Oliveira atualiza o júri, dando ouvidos a diferentes lugares de fala, e ajusta a fábula para o Brasil de 2020, evidenciando a necropolítica que pauta a prática da “justiça” no país.

Museu dos Meninos é um projeto transdisciplinar autoral de Mauricio Lima, ator e bailarino carioca, nascido e criado na Alvorada, favela do Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro. A obra se dedica ao mapeamento e preservação da memória, com uma série de 30 vídeosdepoimentos de homens jovens, entre 15 e 29 anos, moradores do Alemão, que se colocam como narradores da sua própria história. Em parceria com o Pandêmica Coletivo, Mauricio Lima criou uma performance online para trazer o público a seu museu virtual.

Essas duas obras marcam a presença do Pandêmica Coletivo como destaque da Mostra Temática da 14ª CineBH. O trabalho do grupo é uma inciativa exemplar, que comprova que as artes continuam vivas e que as redes não são apenas dispositivos de captura – elas também servem para nos manter no ar e ainda nos ensinam que precisamos fazer isso juntes. Que o cinema e o teatro brasileiros estejam cada vez mais próximos, que outras estratégias reforcem a beleza e a força dessa aglomeração.

Daniele AvilaSmall
Curadora da Mostra Temática, crítica e curadora de teatro