UM PEQUENO E DIVERSO RECORTE DO IMAGINÁRIO CONTEMPORÂNEO

Nos últimos anos tivemos uma diminuição significativa do número de produções brasileiras em razão de um atribulado contexto social e político. Mas apesar disso é possível ainda ver que, devido às políticas públicas do período anterior a 2018 ou mesmo à expertise de uma produção radicalmente independente, um certo número de filmes ainda vêm à luz e nos revelam uma diversidade de olhares e gestos que foram fomentados no trabalho de diretores e produtores durantes a última década.

Um Dia Qualquer, de Pedro von Krüger, é um produto híbrido, pensado para a televisão (como minissérie) e para o formato de longa-metragem. Krüger faz uma crônica urbana violenta que tem as milícias – sua lógica política e de intervenção – como centro irradiador de uma trama que se esmera a elaborar uma narrativa que tem muito pouco do efeito do realismo social, tal como uma temática dessa parece sugerir, e investe na imagem claramente artificiosa. É um filme que, sob esse ponto de vista, se filia a tendências da indústria contemporânea internacional. Um Dia Qualquer é um modelo que denota um tipo de produção brasileira que ao mesmo tempo pretende falar diretamente ao seu tempo e lugar (Brasil, hoje) e cultivar elementos estéticos e de valor de produção internacionais.

A Primeira Noite de Joana, de Cristiane Oliveira, tem um tom oposto ao filme de Krüger. O arejamento cênico e a serenidade narrativa contam uma história do processo de (auto)compreensão de uma menina na puberdade no interior do Rio Grande do Sul. Curiosamente é também um filme sobre a violência. A violência às vezes sutil da família e da tradição e às vezes mesmo daquilo que pode ser considerado amor. O filme de Cristiane Oliveira é mais um passo sólido da construção de um estilo forte, porém discreto.

Nós Passarinhos, de Antonio Fargoni, é um longa-metragem realizado durante a pandemia que filma a cidade fechada e personagens encerradas em suas casas; Márcia e Mariza, e Antonio, tentando fazer um filme sobre a experiência. O filme de Fargoni pode ser visto como uma ficção com efeito de documentário ou um documentário com estratégias de ficção. É um testemunho imaginativo sobre a pandemia realizado pelo projeto Cinema Instantâneo, que tem gerado filmes interessantes nos últimos anos.

Desaprender a Dormir, de Gustavo Vinagre, poderia ser considerado um filme que toma a circunstância do isolamento social como ponto de partida, mas avança para uma elaboração mais radical que parte da dificuldade de dormir – e de uma certa insularidade contemporânea que está para aquém e além da pandemia – como uma condição contemporânea que afeta os corpos, os desejos e o imaginário. O filme, por mais que lide com a condição atual de um psiquismo em vias de exaustão, mantém um humor singular que é também uma reserva libidinal.

Esses quatro filmes são todos trabalhos sintonizados com seu tempo, narrando ou pensando as questões candentes do imaginário brasileiro atual que pode ir desde uma narrativa sobre as milícias, passando pelas questões de afeto e repressão na vida de mulheres e chegando à reflexão sobre as teias complexas do imaginário contemporâneo insular e digital. Esse pequeno recorte da Mostra CineBH nos dá a dimensão da realidade atual do cinema brasileiro.

Francis Vogner dos Reis

Marcelo Miranda

Pedro Butcher

Curadores