Aproximar-se das imagens em movimento, absorver suas infinitas possibilidades, deixar-se atravessar por aquilo que o quadro propõe: em tempos de pandemia, quando as pessoas se obrigaram a se isolar, a relação com o audiovisual se tornou mais intensa e mais necessária. E as formas de apreensão se alteraram. Se o exercício de cinefilia doméstica passava por escolhas geográficas (estar ou não num festival) ou mesmo financeiras (comprar ou não o ingresso), a proliferação de eventos on line fez muito disso se esvanecer. Agora o cinema está literalmente a um clique, em qualquer lugar do mundo, por enquanto sem vias disso se alterar substancialmente por algum tempo.

A situação mundial teve por consequência que todos os filmes passaram a ser vistos onde fosse possível: telas de celulares, laptops, TVs inteligentes, tablets etc, independente de suas “intenções” de serem mais ou menos “cinema”. Tudo é audiovisual nesse momento. A competição com a ligeirice dos produtos de streaming se acirrou. Como competir com a nova temporada daquela série queridinha de todo mundo? Como incutir o cinema brasileiro a quem está ansioso pelo próximo episódio daquele realityfamoso? Ora, vamos aos filmes, afinal: são eles que respondem a essas perguntas; é sua força que garante a atenção e o interesse. Sem os filmes, não há conversa. Com os filmes – e o interesse de uma audiência que, mesmo diante de tantas distrações e de disputa acirrada pelo tempo, demanda vorazmente por produções brasileiras –, tem-se o retorno.

A 14a CineBH embarca nessa aventura da disputa pelo tempo e sensibilidade de cada numa breve e intensa seleção de títulos brasileiros em pré-estreia. Todos eles, nas suas singularidades e abordagens distintas, carregam algo das angústias contemporâneas – sejam elas políticas, sociais, afetivas ou estéticas. Esvaziamento de valores, a solidão das grandes cidades, a justeza histórica, a farsa como provocação aos desmandos autoritários, o horror que alegoriza o passado colonialista brasileiro: imagens entre a realidade dura e o pesadelo delirante.