O espetacular ato terrorista que inaugurou o século XXI, no 11 de setembro de 2001,  deixou um imenso buraco físico e simbólico no mundo globalizado. Em nome da segurança e da “guerra ao terror”, fissuras se tornaram brechas, que se tornaram rombos, abrindo novos precedentes para amplificar estruturas de vigilância já existentes. Não só a vigilância das imagens capturadas por câmeras de segurança, mas também uma nova forma de vigilância que começava a se vislumbrar, possível graças a um processo de digitalização generalizado. Afinal, para evitar novos atentados, seria preciso não apenas monitorar os terroristas, mas antecipar suas ações.

Mais ou menos nessa época, começavam a crescer os sites de busca da internet. Uma empresa, em especial, se beneficiou das porteiras abertas pelo 11 de Setembro. Segundo ShoshanaZuboff, autora de A era do capitalismo de vigilância, “o Google lançou uma operação de mercado sem precedentes nos espaços não mapeados da internet, onde enfrentou poucos impedimentos jurídicos ou de concorrentes (…) O Google também se beneficiou de acontecimentos históricos quando o aparato de segurança nacional, galvanizado pelos ataques de 11 de Setembro, estava predisposto a alimentar, imitar, proteger e se apropriar das emergentes capacidades do capitalismo de vigilância em nome de um conhecimento total e sua promessa de certeza absoluta”.

A 15ª CineBH coloca em debate essas questões através de filmes que põem em xeque o estatuto das imagens e do controle exercido por elas através do uso da tecnologia por instâncias muitas vezes fora dos nossos controles. A partir de centenas de registros amadores das filmagens da franquiaTransformers carregados na internet, Kevin concebeu Transformers: The Premake (2014), obra construída a partir do desktop de uma tela de computador. Nele, temos não só a dimensão da ubiquidade das câmeras, mas também da operação de guerra que é a produção de um grande blockbuster hollywoodiano da era global. Como mostram os vídeos amadores, Michael Bay e seu time “explodiram” várias cidades dos Estados Unidos e da Ásia. Ao mesmo tempo, o estúdio dono do filme, a Paramount, tenta vigiar os sites onde esses vídeos são carregados para derrubar aqueles que podem ferir seus interesses.

Outros filmes se fazem valer de estruturas semelhantes, com propósitos e resultados bastante diferentes. Em Nunca é noite no mapa (2016), Ernesto de Carvalho parte de imagens do Google Maps para nos fazer ver além da “utilidade” do “serviço”. O passeio virtual proposto por Ernesto sublinha arquiteturas urbanas e os rostos apagados das pessoas eventualmente flagradas pelas câmeras 360 graus.Eleonore Weber escolheu um título semelhante para seu documentário feito a partir de imagens captadas por helicópteros em missões de guerra no Afeganistão, Iraque e Paquistão. Em Não haverá mais noite (2020), a diretora recolhe e reorganiza imagens para construir um retrato horripilante e revelador do novo “teatro de guerra”.

A ideia do desaparecimento da noite também está no centro de Toda luz em todo lugar (2021), documentário de Theo Anthony que examina com detalhes vários aspectos da sociedade da vigilância. Um dos mais fascinantes é a visita a uma fábrica cujo produto principal são câmeras feitas para serem acopladas a uniformes de policiais. A violência policial é o tema central de Auto de resistência (2018), de Natasha Neri e Lula de Carvalho. O título se refere à classificação utilizada para proteger policiais da responsabilização de homicídios, já que a alegação é sempre de que os tiros foram efetuados em legítima defesa contra alguém que teria reagido violentamente ao resistir à prisão. O documentário acompanha de forma sensível as famílias das vítimas dos homicídios praticados pela polícia do Rio de Janeiro, do momento da morte, passando pelas investigações da polícia aos julgamentos ou arquivamentos de processos.

O Monopólio da violência (Un pays qui se tient sage, 2020), de David Dufresne, por sua vez, também trata de violência policial, mas com procedimentos e resultados totalmente diferentes. Tendo como foco nas manifestações do movimento dos “coletes amarelos” que tomaram conta da França em outubro de 2018, esse documentário também parte de flagrantes da ação violenta da polícia feitas por câmeras de celulares, misturados a depoimentos de testemunhas e especialistas em políticas de segurança e de Estado. A grande curiosidade aqui é o grau de mobilização gerado pelo documentário, que levou o presidente Emanuel Macron a se pronunciar e estimulou a revisão de leis do país.

Um conjunto essencial de quatro filmes bem diferentes trabalha de forma mais específica o que seria uma estética da vigilância e da contra vigilância. Em O sol pode mentir? (Can the Sun Lie, 2014), Susan Schuppli, uma das fundadoras do coletivo Forensic Architecture, examina a história do uso da fotografia e da imagem em movimento como evidência em tribunais de justiça. A pergunta do título foi feita durante um julgamento nos Estados Unidos em 1886, inaugurando disputas e discussões em torno do conhecimento leigo,da perícia científica e da força simbólica das imagens como evidências.Já Canções engarrafadas 1-4 (Bottled Songs 1-4, 2020) é um filme-ensaio na forma de troca de cartas entre Chloe Galibert-Lainê e Kevin B. Lee no qual os artistas visuais destrincham os aspectos formais e as estratégias discursivas de um vídeo de propaganda do Estado Islâmico, amplamente difundido na internet. O filme propõe uma visão histórica das estratégias da propaganda fílmica e discute a complexidade das formas narrativas e dos meios de difusão.

Circuito hackeado (Hacked Circuit, 2014), de Deborah Stratman, joga luz a um aspecto que se torna evidente quando se vê os filmes de ficção sobre vigilância, sobretudo aqueles produzidos por Hollywood no ambiente de paranoia pós-Watergate: a importância do som na construção de uma constante sensação de estarmos sendo vigiados. Stratman concebe seu filme como um plano sequência em que a câmera se movimenta lentamente, enquanto ouvimos a trilha do filme A conversação (The Conversation, 1974), de Francis Ford Coppola.

Por fim,Cena do crime (2021), de Pedro Tavares, trabalha com extrema originalidade as questões propostas pela temática desse ano na CineBH. O assassinato de uma jovem em um bairro nobre do Rio de Janeiro é o ponto de partida para um passeio por um labirinto de imagens, construído a partir do ponto de vista de câmeras e aparatos de vigilância espalhados por ambientes internos e externos. Uma ansiedade latente e um sentido de mistério chamam a atenção para aquilo que as câmeras não podem mostrar.