Há algumas décadas os festivais de cinema são muito mais que fenômenos isolados, destinados a festejar a arte cinematográfica. A reconfiguração das forças de produção industriais, marcada por uma imensa concentração de recursos e poderes, por um lado, e a efetiva democratização dos meios de produção da era digital, por outro, desenharam um cenário em que os espaços de distribuição e exibição nas salas de cinema tradicionais se tornaramcada vez mais fechados e caros, ao mesmo tempo em que a internet teve muitos de seus canais de circulação oficiais controlados e/ou obstruídos.

Com a digitalização da exibição cinematográfica, os festivais de cinema se multiplicaram em velocidade próxima à dos filmes e passaram a exercer um novo papel, formando uma rede capilarizada que, hoje, pode ser considerada como um circuito de acesso plural e alternativo. No campo da produção, os festivais passaram a atuar de forma mais ativa, com o objetivo principal de garantir a realização de projetos com dificuldade de financiamento e estimular a entrada em cena de novos talentos – um modelo que pode ser polêmico para parte dos criadores, mas que proporciona pelo menos alguma distribuição de recursos e a viabilização de projetos. 

No campo da distribuição e da exibição, muitos festivais de médio e pequeno porte passaram a representar aquela que seria a única chance de acesso à experiência da sala de cinema para o público local, ao mesmo tempo em que traziam uma movimentação singular – social e econômica – para essas localidades. Com a pandemia e a migração (temporária) de muitos festivais para plataformas digitais, houve a perda da experiência coletiva das salas e dos encontros ao seu redor (oficiais ou não); ao mesmo tempo, muitas pessoas impossibilitadas de se deslocar até os festivais puderam ter acesso aos filmes e a participar de debates. Nos próximos anos, é possível que se busque um equilíbrio entre a força da experiência presencial e as possibilidades de acesso do formato online.

A Mostra CineMundideste ano apresenta cinco longas-metragens cujos projetos passaram pelo encontro de coprodução em diferentes estágios e encontraram seus caminhos de forma muito particular no hoje amplo universo dos festivais, que representaram, para cada um deles, pontes de acesso a diferentes mercados e públicos.

Há festivais dos mais diversos portes e objetivos. Os grandes eventos internacionais, que em geral também abrigam grandes mercados, são portas de entrada para a distribuição em salas de cinema nos países que ainda possuem uma estrutura de exibição para além dos conjuntos multiplex (esses, praticamente fechados a qualquer filme que não seja um grande blockbuster). Mas, além deles, há centenas de festivais que apresentam outras possibilidades de circulação e, em muitos casos, se tornam focos de resistência.

Os filmes da Mostra CineMundi deste ano traçaram caminhos singulares na rede de estradas proporcionadas pelos festivais – e alguns enfrentaram o desafio de repensar estratégias diante das dificuldades impostas pela pandemia da covid-19.