Quando entramos em contato com Welket Bungué com o convite para exibir seus filmes na programação do Cine BH 2020ele estava em Lisboa, em trânsito para Berlim, onde mora atualmente. Welket nasceu em Guiné Bissau (em 1988) e já morou em Portugal, no Brasil – onde fez uma pós graduação em performance, na Uni-Rio, entre 2012 e 2013 – e na Alemanha, com passagens por Cabo Verde e outros países. É um sujeito em trânsito constante, de identidades em trânsito, que se faz valer do trânsito entre linguagens como forma de expressão.

Em fevereiro passado, Welket Bungué apareceu na imensa tela do Berlinale Palast, sede do Festival de Berlim, como ator principal do longa-metragem Berlin Alexanderplatz, de Burhan Qurbani, que participou da competição principal. Nesta nova versão do romance de Alfred Döblin (adaptado por Rainer Werner Fassbinder como minissérie de TV, em 1980),Welket está à frente de uma reinterpretação crítica do romance, que vem acompanhada de uma reinterpretação crítica da imagem de Berlim como uma cidade cosmopolita e aberta a imigrantes e refugiados.

Em julho de 2020, com a pandemia já instalada há alguns meses, uma série de trabalhos realizados por Welket foram apresentados pela sessão Cine África, cineclube coordenado por Camila de Souza Esteves, Jusciele Conceição Almeida de Oliveira e Morgana Gama de Limaque, como tantas outras iniciativas, havia se transferido para o formato online. Foi a oportunidade de tomar um primeiro contato com a multiplicidade de seu trabalho autoral.Os curtas de Welket, dos mais diferentes estilos e formatos, são exemplos de uma obra audiovisual em que realização e performance se tornam aspectos indissociáveis. Quando a temática central do Cine BH 2020 se consolidou, a passagem pelos curtas de Welket se tornou obrigatória.

A seleção que apresentamos tenta dar conta dessa capacidade múltipla, que dialoga com a proposta deste ano de lançar alguma luz para trabalhos que buscam nas ferramentas da linguagem audiovisual uma potencialização da performance e do “ao vivo”. Apesar de serem obras muito diferentes entre si, elas guardam em comum um sentido de urgência que precisa de uma força performática para se materializar na tela.