A INCAPACIDADE DE VIGIAR A VIGILÂNCIA E COMO REAGIR AO CAPITALISMO DE CONTROLE FORAM TEMAS DEBATIDOS POR CONVIDADOS DA CINEBH

20210930 – 15ª CineBH – Mostra Internacional de Cinema de Belo Horizonte – Brasil Cinemundi – 12th International Coproduction Meeting – Debate: Estética da Contravigilância – Foto: Reprodução/Universo Produção

As contradições de um mundo moderno que depende de dispositivos e de mecanismos de busca e informação cujo propósito é “secar” o usuário até deixá-lo apenas com restos – econômicos e políticos – enquanto os conglomerados de comunicação concentram boa parte da riqueza mundial. São ideias complexas, que atravessam o cotidiano de cada um de nós e estiveram no centro do debate “Estética da Contravigilância”, nesta quinta-feira (30/9) na 15ª CineBH. Transitando entre a onipresença da vigilância no dia a dia dos indivíduos e as formas como a arte do audiovisual pode se apropriar dessa ecologia de imagens e sons, os convidados Ernesto de Carvalho, Natália Reis e Miguel Antunes Ramos descreveram cenários instigantes a partir do tema da mostra esse ano.

Autora de um artigo sobre o curta-metragem “Circuito Hackeado”, de Deborah Stratman – que está na programação da CineBH –, a pesquisadora Natália Reis apontou duas estratégias para o que ela pensa como uma possível estética da contravigilância: apropriação e desconstrução. “Tirar do contexto algumas imagens de câmeras de rua e a partir disso explorar a materialidade do dispositivo, a pouca luminosidade, os planos abertos e estáticos etc”, enumerou. “Ou a apropriação da linguagem, com os desktops movies, e a apropriação de mecanismos de busca (dados, imagens, câmeras de Google Maps). Quando a gente se apropria dessas ferramentas, podemos nos colocar também na posição de vigilantes e construir nossas próprias investigações”, disse ela.

O cineasta Ernesto de Carvalho ponderou o quanto o indivíduo do dia a dia é impossibilitado de realmente responder à vigilância imposta a ele. “Eu não sei se a gente vigia, não creio que a gente tenha a capacidade de vigiar os mecanismos de vigilância. Podemos gerar processos disruptivos, interpelar, mas numa capacidade muito pequena. A qualidade do poder é não permitir ser observado. O olho do poder gosta de ser invisível. Só que às vezes ele aparece e a gente tem a impressão de observá-lo”, afirmou.

Ernesto alertou para o risco de um fascínio exacerbado por esses mecanismos de poder como algo que acaba sendo positivo aos próprios mecanismos. “A gente gosta de olhar para o poder, mas é preciso muito cuidado. Tem uma série de filmes americanos que olharam essas imagens de poder com a sensação de estarem mostrando como funciona a sociedade de controle, mas estavam alimentando paranoias que podem se transformar numa espécie de fetiche pelo poder”, disse ele. “A vigilância é um processo de transformação dos nossos gestos, da nossa existência, dos nossos desejos, dos nossos gostos, dos nossos vínculos, das nossas trajetórias, da nossa geografia, em metadados e informações tabeláveis”.

O cineasta Miguel Antunes Ramos reforçou que esse tabelamento informacional amplifica os processos de maquinização das relações das pessoas com as grandes empresas com as quais interagimos constantemente (Google, Amazon, Facebook). “O nível de metadados criado por esse aparato ubíquo é impossível de ser gerido por um olho humano, então a vigilância contemporânea só pode ser gerida de forma maquínica. O capitalismo de vigilância que nasce com o Google se aproveita dos usuários e constrói linhas de codificação para mapear os indivíduos e também a geografia das cidades e a forma como circulamos nela”, comentou Miguel. “A nossa existência de vida vai sendo sugada por esse capitalismo maquínico e nós passamos a viver com os restos, inclusive políticos”. Como exemplo, ele citou o resultado das eleições brasileiras em 2018 e as consequências de se ter o atual governo no poder.

Miguel chamou atenção para a importância de identificarmos também no passado os mecanismos de controle e trazê-los ao presente como forma de exercer a chamada contravigilância. “Existe uma história da contravigilância no nosso cinema documentário, em especial os que usam materiais de arquivo da ditadura para se pensar a própria ditadura. No fundo, toda a trajetória do cinema de arquivo passa por ver as próprias imagens feitas em algum momento e possíveis de serem vistas”.

SOBRE A MOSTRA CINEBH

Com edições anuais e consecutivas, a CineBH – Mostra Internacional de Cinema de Belo Horizonte, o evento de cinema da capital mineira, chega a sua 15a edição de 28 de setembro a 03 de outubro de 2021, em formato online e gratuita, reafirmando seu propósito de mostrar o cinema para o mundo, promover o diálogo entre as culturas, aproximar povos e continentes, fazer a conexão do cinema brasileiro com o mercado audiovisual, realizar encontros de negócios, investir na formação, intercâmbio e cooperação internacional, construir pontes nas escolas, comunidades, redes sociais e com a cidade de Belo Horizonte e Minas Gerais.

A 15a CineBH – Mostra Internacional de Cinema de Belo Horizonte e o 12o Brasil CineMundiintegram o Cinema sem Fronteiras 2021 – programa internacional de audiovisual idealizado pela Universo Produção e que reúne também a Mostra de Cinema de Tiradentes (centrada na produção contemporânea, em janeiro) e a CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto (que difunde o audiovisual como patrimônio e ferramenta de educação, em junho).

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ESTE EVENTO É REALIZADO COM RECURSOS DA LEI MUNICIPAL DE INCENTIVO À CULTURA DE BELO HORIZONTE

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