CONFIRA O QUE ROLOU NA RODA DE CONVERSA COM O DIRETOR DO FILME EM PROCESSO “FALA, CASSANDRA”

20210930 – 15ª CineBH – Mostra Internacional de Cinema de Belo Horizonte – Brasil Cinemundi – 12th International Coproduction Meeting – Bate-Papo Sobre o Filme em Processo “Fala, Cassandra” – Foto: Reprodução/Universo Produção

Em mais uma Roda de Conversa da série Encontro com os Realizadores, nesta quinta-feira, dia 30 de setembro, a 15a CineBH promoveu um bate-papo entre Francis Vogner dos Reis – curador Mostra CineBH | SP e o cineasta  Miguel Antunes Ramos – cineasta | SP, diretor do work in progress “Fala, Cassandra”. A produção ficou disponível em duas sessões nesta quinta: às 16 e às 20 horas.

Francis iniciou o encontro esclarecendo sobre a escolha da temática Cinema e Vigilância para a 15a edição da CineBH. “A proposta surgiu no processo da curadoria no ano passado, pensada para um evento online, como uma reflexão sobre a forma como as artes se relacionavam e se embricavam nessa realidade que não é tão nova, mas que entrou numa outra dimensão com o isolamento social. Agora, na 15a CineBH propomos uma reflexão sobre isso, com o destaque do Forensic Architecture e por meio de uma série de filmes que dialogam com a complexidades que esse tema exige”.

O curador apontou as razões para apresentar “Fala, Cassandra”, ainda como filme em processo, na edição de 2021 da CineBH. “É um trabalho voltado para a questão da vigilância, internalizada na estética do filme. E traz outras reflexões, a partir de uma inter-relação das imagens. Além disso, é interessante debater um work in progress e as escolhas da montagem de um filme que pensa no impacto e na força da intervenção politica dessas imagens no cotidiano e como a política das imagens se comporta”. Francis recordou que viu um primeiro corte de “Fala, Cassandra” há dois anos, quando a montagem ainda estava em outro estágio e que acredita que a obra deve ter mudado muito desde então. “E como é uma produção que ainda não terminou, esse diálogo prossegue”.

Questionado sobre como surgiu a ideia de fazer esse filme, o cineasta Miguel Antunes Ramos reiterou que é importante ficar claro para o público que o longa-metragem ainda não está pronto, “falta gravar umas coisas, fazer correção de cores, entre outros ajustes”. Além disso, o diretor também salientou que o filme é um trabalho coletivo e que há diversos outros profissionais envolvidos no processo”.

“Acho que ‘Fala, Cassandra’ foi gerido em 2017/2018, no contexto de uma sensação coletiva de que a ruptura estava aumentando, que era possível entrever um certo peso e que era um cenário no qual não sabíamos ainda onde ia chegar”, explicou o diretor. Ele lembrou de uma experiência muito marcante neste mesmo período, quando trabalhou no filme “Operação de Garantia da Lei e da Ordem” da Julia Murad. Num bate-papo com o público, após a exibição do longa no Espaço Taperá Taperá, uma pessoa na plateia perguntava insistentemente a opinião da equipe a respeito da polícia, já que o filme se posiciona contra a repressão aos manifestos de 2013. “Demorei para entender que aquele indivíduo era um policial, que estava a paisana naquela sessão. Fiquei chocado, pois considerava um evento banal, no sentido de bem pequeno e com um público limitado, mas que ainda assim um policial foi acompanhar”.

Miguel citou também um evento que chamou tanta atenção que acabou sendo abordado no filme. “Foi o caso do Balta Nunes, a infiltração de um militar em movimentos de esquerda, na época do Fora Temer!. Esse militar estava infiltrado há anos e sua ação resultou numa prisão coletiva de um grupo de jovens em São Paulo. Para mim, essa história precisava ser mais pensada coletivamente”.

Promovendo uma conexão entre a Roda de Conversa e o debate “Estética da Contravigilância”, que ele também participou, Miguel salientou que “por um lado, quando falamos em vigilância, pensamos em uma coisa descentralizada e transnacional. Ao mesmo tempo, temos uma história no Brasil e na América Latina de uma vigilância estatal em governo ditatorial que não faz tanto tempo que acabou. Nossa ideia é que o filme tente pensar e lincar essas duas histórias paralelas que podem, ou não, se encontrar”.

Miguel esclareceu ainda sobre a inserção da peça na narrativa do longa. “Propus para o grupo de teatro, chamado Comitê Escondido, de pensar juntos e filmar a trupe ensaiando a montagem do texto ‘Agamêmnon’, de Ésquilo. A ideia inicial era ensaiar o espetáculo com uma das pessoas que fez parte do grupo denunciado pelo Balta Nunes. Eu estava fascinado por essa peça, porque ela tem uma certa dicotomia que me parece muito rica, entre o Agamêmnon e a Cassandra”.

Conforme explicou o cineasta, “Agamêmnon”, de Ésquilo, apresenta um cortejo vitorioso que se passa quando Agamêmnon volta da Guerra de Troia. Ao chegar ao palácio, ele será assassinado pela esposa, em uma espécie de vingança ou justiça, por Agamêmnon ter sacrificado sua filha para conseguir a vitória na guerra. “Agamêmnon é esse personagem poderoso, que tudo pode, mas que não sabe e não consegue ver o que vai acontecer com ele. Já  Cassandra, é uma vidente, que previu a Guerra de Troia, a morte de Agamêmnon e sua própria morte, mas que não consegue fazer nada para impedir. Essa dicotomia de quem vê e quem age, parecia fazer muito sentido em 2018.  Tinha algo de uma sensação de que estávamos indo para um abismo e de que não era inevitável”.

Retomando a questão sobre a vigilância, Francis Vogner dos Reis evidenciou que ela é um tipo de tática do poder e de controle. “Agora temos os aparatos tecnológicos, que colocam isso num outro nível. Se antes era o Estado que detinha o monopólio da vigilância, agora existe uma grande rede de poder”. O curador ainda ressaltou que o ensaio sobre a vigilância presente no filme tem como um ponto de partida os aparatos tecnológicos para questionar a vigilância”.

O bate-papo foi intermeado por reflexões sobre atual situação política do Brasil e do mundo, com questionamentos sobre o uso das redes sociais pelo presidente do Brasil e o ex-presidente dos Estados Unidos, a hiperprodução de dados pela sociedade contemporânea, a capacidade aparatos tecnológicos de vigilância e o impacto dessa que parece ser a nova Guerra Fria na nossa sociedade. E o público teve ainda a oportunidade de conferir alguns trechos do filme, com comentários do diretor.

SOBRE A MOSTRA CINEBH

Com edições anuais e consecutivas, a CineBH – Mostra Internacional de Cinema de Belo Horizonte, o evento de cinema da capital mineira, chega a sua 15a edição de 28 de setembro a 03 de outubro de 2021, em formato online e gratuita, reafirmando seu propósito de mostrar o cinema para o mundo, promover o diálogo entre as culturas, aproximar povos e continentes, fazer a conexão do cinema brasileiro com o mercado audiovisual, realizar encontros de negócios, investir na formação, intercâmbio e cooperação internacional, construir pontes nas escolas, comunidades, redes sociais e com a cidade de Belo Horizonte e Minas Gerais.

A 15a CineBH – Mostra Internacional de Cinema de Belo Horizonte e o 12o Brasil CineMundi integram o Cinema sem Fronteiras 2021 – programa internacional de audiovisual idealizado pela Universo Produção e que reúne também a Mostra de Cinema de Tiradentes (centrada na produção contemporânea, em janeiro) e a CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto (que difunde o audiovisual como patrimônio e ferramenta de educação, em junho).

SERVIÇO

LEI FEDERAL DE INCENTIVO À CULTURA

ESTE EVENTO É REALIZADO COM RECURSOS DA LEI MUNICIPAL DE INCENTIVO À CULTURA DE BELO HORIZONTE

PATROCÍNIO: MATER DEI, COPASA, CEMIG | GOVERNO DE MINAS GERAIS

PATROCÍNIO MOSTRA A CIDADE EM MOVIMENTO: patrocinada com recursos do Fundo Internacional de Ajuda para Organizações de Cultura e Educação 2021 do Ministério das Relações Exteriores da República Federal da Alemanha, do Goethe-Institut e de outros parceiros: www.goethe.de/hilfsfonds

PARCERIA CULTURAL: SESC EM MINAS, INSTITUTO UNIVERSO CULTURAL, CASA DA MOSTRA

PARCEIROS BRASIL CINEMUNDI: EMBAIXADA DA FRANÇA NO BRASIL, DOT, MISTIKA, PARATI FILMS, CTAV, FORTE FILMES, NAYMOVIE

COOPERAÇÃO BRASIL CINEMUNDI: WORLD CINEMA FUND(Alemanha), NUEVAS MIRADAS – EICTV(Cuba), BIOBIOCINE(Chile), CONECTA – CHILE DOC(Chile),  MAFF(Espanha), DOCSP(Brasil), DOCMONTEVIDEO (Uruguai), VENTANA SUR(Argentina), INSTITUTO OLGA RABINOVICH / PROJETO PARADISO(Brasil)

APOIO: CAFÉ 3 CORAÇÕES.

REALIZAÇÃO: UNIVERSO PRODUÇÃO

SECRETARIA ESPECIAL DE CULTURA | MINISTÉRIO DO TURISMO| GOVERNO FEDERAL