DEBATE INAUGURAL DA 15ª CINEBH ABORDA AS CIDADES COMO ESPAÇOS DE VIGILÂNCIA E DE MÍDIA

“Os espaços urbanos hoje são basicamente espaços midiáticos”: essa frase, dita pelo arquiteto Paulo Tavares no debate inaugural da 15ª CineBH, resume muito do que foi apresentado na cerimônia de abertura da mostra, na noite de terça-feira (28/9). A performance audiovisual teve participação dos Arautos do Gueto, reapresentando a clássica “Minha Alma”, do Rappa, num videoclipe ao ar livre tendo Belo Horizonte ao fundo. Diversas figuras da cultura belo-horizontina falaram sobre a relação de suas expressividades e as cidades, ilustrando a conexão da mostra com a capital mineira.

O debate inaugural que se seguiu tratou da temática desse, “Cinema e Vigilância”, com mediação do curador Pedro Butcher. O arquiteto Paulo Tavares representou o destaque desse ano, o coletivo internacional Forensic Architecture, cujo trabalho transita entre audiovisual, artes visuais e práticas de investigação forense. “É interessante ver o Forensic num contexto de festival de cinema porque os trabalhos nascem de um outro lugar e com outras intenções, ainda que ativista, política e militante”, comentou Paulo.

A ideia dos espaços urbanos como espaços midiáticos foi relacionada por ele não apenas ao fato de o indivíduo ser hoje observado 24 horas por câmeras de vigilância, mas também que “os meios de produção audiovisual foram socializados, e esse indivíduo é tanto o objeto da vigilância quanto também e potencialmente uma câmera vigilante ele mesmo”.

Uma das consequências disso apontada por Paulo é que as pessoas se tornam agentes de contravigilância e de monitoramento cidadão, ainda que “sempre numa espécie de defasagem, tanto tecnológica quanto epistemológica, no que se refere ao conhecimento daquilo que é o fato, porque o Estado vai deter a capacidade de vigilância maior”.

O crítico e filósofo Bernardo Oliveira, participante do debate inaugural, buscou no teórico da mídia Friedrich Kittler a ideia de que a história da câmera de filmagem coincide com a história das armas automáticas. “Para poder mirar e fixar objetos ou pessoas em movimento, há justamente dois modos: atirar e filmar”, citou Bernardo. Relembrando as primeiras imagens captadas pelo cinematógrafo, no final do século 19, o crítico ponderou, a partir do cineasta alemão Harun Farocki, que os planos de trabalhadores saindo da fábrica dos Lumiére se tornaram registros de movimento e também de signo de poder na relação dos empresários com os empregados.

Tratava-se, em certa forma, dos registros iniciais de observação e vigilância que o cinema expôs. “Para além de um objeto técnico análogo a uma arma, a câmera é uma espécie de instrumento cartográfico que possibilita capturar e controlar uma representação e simultaneamente produzir um mapa de choques e disjunções ao qual chamamos movimento”, disse Bernardo.

A pesquisadora Patrícia Mourão citou o videasta experimental Stan Brakhage como um nome que colocou em xeque a capacidade das imagens de refletirem o que se chama de realidade e neutralidade. A chegada do vídeo, nos anos 80, amplificou a desconfiança com a imagem captada. “Passa-se a ter certa rejeição dos modos de observação do documentário por conta de uma suposta crença positivista na realidade”, disse.

A extrema direita se apropriou recentemente dessa desconfiança, construída ao longo dos anos, e se utilizou de estratégias questionáveis, porém eficientes, de gente como Steve Bannon, influindo em movimentos históricos como o Brexit, na Inglaterra, e a eleição de Donald Trump, nos EUA.

Patrícia, então, refletiu sobre como trabalhos de desconstrução como os do Forensic Architecture recolocam as discussões sobre a imagem de volta ao jogo de forças. “Não é exatamente que um coletivo de arte tem um efeito sobre o real, é que o Forensic desloca o centro da prática documental para os lugares de produção e de recepção de todos os fluxos informacionais. São filmes que fazem parte de situações de investigação que mobilizam diferentes colaboradores para acionar um conjunto polifônico que participa de todo o processo”.


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