REFLEXÕES SOBRE AS IMAGENS DE VIGILÂNCIA USADAS PARA EFEITOS ESTÉTICOS E EMOCIONAIS ESTEVE NO CENTRO DE FILMES E DEBATES DA 15ª CINEBH

20210928 – 15ª CineBH – Mostra Internacional de Cinema de Belo Horizonte – Brasil Cinemundi – 12th International Coproduction Meeting – Abertura Oficial – Foto: Leo Lara/Universo Produção

O maior desejo do poder é não ser percebido. Essa máxima se tornou ideia central nos filmes e debates da 15ª edição da CineBH – Mostra Internacional de Cinema de Belo Horizonte. Sob a temática “Cinema e Vigilância”, as conversas sobre as formas que instâncias de controle e opressão assumem para dar conta de movimentos e desejos individuais num mundo cada vez mais tomado por dispositivos eletrônicos ultra-avançados foram a tônica do evento em 2021. Sentiu-se, por falas de convidados e trabalhos audiovisuais incluídos na programação, a preocupação de artistas e militantes em responder a esses controles através de expressividades variadas, que vão desde criações puramente formais a intervenções que se utilizam de imagens e sons para denunciar e expor as ações mais violentas.

O destaque desse ano na CineBH foi ilustrativo dessas ideias. O coletivo internacional ForensicArchitecture foi representado pelo brasileiro Paulo Tavares, que explicou o funcionamento da chamada “arquitetura forense” como uma investigação arqueológica para se chegar a evidências que comprovem, quase cientificamente, a verdade de determinados acontecimentos. “É interessante ver o Forensic num contexto de festival de cinema porque os trabalhos nascem de um outro lugar e com outras intenções, ainda que ativista, política e militante”, diz Paulo.

O trabalho do coletivo, para ele, tem essa ecologia de imagens e sons como material de pesquisa e detalhamento, utilizando do máximo possível de recursos (documentos, vídeos, filmagens, testemunhos, mapas, gráficos, projeções) para ampliar o sentido de situações relacionadas ao comportamento humano (em âmbito político e social), impossível de ser mapeado apenas num único aspecto. Os espectadores da CineBH puderam constatar esses procedimentos do ForensicArchitecture em filmes como “O Assassinato de Harith Augustus”, que reconstitui detalhadamente o assassinato de um barbeiro negro pela polícia de Chicago; e “Memória da Terra”, que resgata incursões do Estado brasileiro num território indígena hoje entendidas como genocidas e coloniais.

“Fizemos essa arqueologia das imagens destrinchando registros oficiais, tirando-os do documentário mais tradicional e interpretando-os como evidência de um processo genocida em que a imagem participou como um dos principais instrumentos de violência”, contou Paulo Tavares. A pesquisadora Patrícia Mourão diz que o efeito dos trabalhos do Forensic é de “deslocar o centro da prática documental para os lugares de produção e de recepção de todos os fluxos informacionais”. Significa, então, que o Forensic transforma os filmes em partes do processo de investigação.

Para Miguel Antunes Ramos, cineasta que finaliza “Fala, Cassandra”, documentário também preocupado na arqueologia dos acontecimentos, é essencial a compreensão de que imagens do passado fazem parte, também, de um conceito amplo de vigilância, que perpassa a própria história do país. “Existe uma história da contravigilância no nosso cinema documentário, em especial os que usam materiais de arquivo da ditadura para se pensar a própria ditadura. No fundo, toda a trajetória do cinema de arquivo passa por ver as próprias imagens feitas em algum momento e possíveis de serem vistas”, afirma ele. “Por um lado, quando falamos em vigilância, pensamos em uma coisa descentralizada e transnacional. Ao mesmo tempo, temos uma história no Brasil e na América Latina de uma vigilância estatal num cenário de ditadura que não faz tanto tempo que acabou”.

Um dos curadores da CineBH, Francis Vogner dos Reis, concorda: “Agora temos os aparatos tecnológicos, que colocam isso tudo num outro nível. Se antes era o Estado que detinha o monopólio da vigilância, agora existe uma grande rede de poder”. A presença dessa rede de poder a que se refere Francis Vogner está justamente na possibilidade de qualquer um de nós carregar, por celulares e outros aparatos, autênticos equipamentos com de controle. “Os espaços urbanos se tornaram espaços midiáticos”, reforça Paulo Tavares. “Os meios de produção audiovisual foram socializados, e cada indivíduo é tanto o objeto da vigilância quanto também e potencialmente uma câmera vigilante ele mesmo”.

Se por um lado isso é fundamental para que denúncias e registros de opressão e violência sejam feitos – como em situações de abuso policial, por exemplo –, por outro existe uma certa ilusão de equivalência, conforme alerta o cineasta Ernesto de Carvalho. “Eu não sei se a gente vigia, não creio que a gente tenha a capacidade de vigiar os mecanismos de vigilância”, aponta ele. “Podemos gerar processos disruptivos, interpelar, mas numa capacidade muito pequena. A qualidade do poder é não permitir ser observado. O olho do poder gosta de ser invisível. Só que às vezes ele aparece, e a gente tem a impressão de observá-lo”.

De fato, há uma enorme discrepância entre um celular no bolso e drones, satélites, câmeras minúsculas e telas escondidas, que caracterizam o poderio vigilante do Estado ou de iniciativas privadas. Uma consequência disso, para Ernesto de Carvalho, é o risco de o próprio meio audiovisual se deixar fascinar demais por esse aparato e não o perceber mais tão criticamente. “A gente gosta de olhar para o poder, mas é preciso muito cuidado. Tem uma série de filmes americanos que olharam essas imagens de poder com a sensação de estarem mostrando como funciona a sociedade de controle, mas estavam alimentando paranoias que podem se transformar numa espécie de fetiche pelo poder”, acredita ele.

O que se percebe, ao menos no retrato da produção de cinema na 15ª CineBH feita a partir desses materiais, é que alguns realizados de várias partes do mundo estão atentos para os efeitos nocivos dessa aproximação exacerbada entre olha externo e intimidade individual. Filmes como “Auto de Resistência”, “Não Haverá mais Noite” e “O Monopólio da Violência”, além do próprio ForensicArchitecture, são verdadeiros tratados sobre a chamada contravigilância.

Para a pesquisadora Natália Reis, “tirar do contexto algumas imagens de câmeras de rua e, a partir disso, explorar a materialidade do dispositivo, a pouca luminosidade, os planos abertos e estáticos etc” é uma maneira de se valer desse manancial de imagens para dar a ele outros propósitos, bem distintos de seus sentidos originários. “Quando a gente se apropria dessas ferramentas, podemos construir nossas próprias investigações”.

A complexidade do processo é justamente a de compreender esses conteúdos como possíveis de uma leitura crítica na articulação criativa que os retira de suas funções (vigilância, controle) para as provocações do realizador (denúncia, crítica). A cineasta francesa Éléonore Weber, diretora de “Não Haverá mais Noite”, diz que olhar a guerra com a distância de uma câmera de drones ou de satélites ou mesmo registros dos próprios militares com intuito de fazer propaganda das ações de conflito realiza uma “pulsão escópica” em torno da relação do espectador com aquelas imagens. O que se vê, através de seu filme, é o que ela identifica como um teatro da guerra. “A morte é vista à distância, é perturbadora e transmite emoções, mas esse distanciamento é também uma maneira de tornar possível encarar aquela tragédia”.

O trabalho da 15ª CineBH  foi, então, o de mapear essas questões e partir delas na compreensão mais ampla dos efeitos disso para o audiovisual. Desde seus primeiros anos, o cinema – caracterizado pelo dispositivo técnico da câmera – tem por essência apontar e filmar aquilo que está diante dos “olhos” da máquina. Como o filósofo francês Jacques Ranciére já apontou, o olhar do cineasta é intermediado pela câmera, objeto frio e sem emoções é o artista que imprime a emoção. Hoje em dia, com a modernização dos equipamentos de vigilância, em muitos casos o fator humano já é prescindível da operação de filmagem, fazendo com que a frieza do registro ganhe novos contornos. Cabe aos cineastas, atentos aos encaminhamentos do meio, encontrarem suas formas particulares de lidarem com esses movimentos. Alguém vigia você.

SOBRE A MOSTRA CINEBH

Com edições anuais e consecutivas, a CineBH – Mostra Internacional de Cinema de Belo Horizonte, o evento de cinema da capital mineira, chega a sua 15a edição de 28 de setembro a 03 de outubro de 2021, em formato online e gratuita, reafirmando seu propósito de mostrar o cinema para o mundo, promover o diálogo entre as culturas, aproximar povos e continentes, fazer a conexão do cinema brasileiro com o mercado audiovisual, realizar encontros de negócios, investir na formação, intercâmbio e cooperação internacional, construir pontes nas escolas, comunidades, redes sociais e com a cidade de Belo Horizonte e Minas Gerais.

A 15aCineBH – Mostra Internacional de Cinema de Belo Horizonte e o 12o Brasil CineMundiintegram o Cinema sem Fronteiras 2021 – programa internacional de audiovisual idealizado pela Universo Produção e que reúne também a Mostra de Cinema de Tiradentes (centrada na produção contemporânea, em janeiro) e a CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto (que difunde o audiovisual como patrimônio e ferramenta de educação, em junho).