Joel Pizzini

São Paulo
23/09 a 25/09 9h30 às 13h30 Presencial em Belo Horizonte Carga horária: 12h Faixa etária: a partir de 18 anos 30 vagas
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Objetivo

Objetivo geral

Proporcionar uma imersão no universo da chamada não ficção, abordando seus limites, dispositivos e possibilidades — do filme-ensaio e da autoficção às expressões contemporâneas do cinema híbrido, compreendido como forma de recriação da realidade.

O cinema híbrido tem conquistado espaço nos cenários nacional e internacional, especialmente em festivais e mostras que acolhem produções inovadoras e de vanguarda. Eventos como o Festival de Sundance e a Berlinale — por meio de seções como Fórum Expanded e a extinta Encounters — têm apresentado filmes que tensionam e tornam instáveis as fronteiras entre o “real” e o “imaginário”.

A expansão da cultura do documentário no Brasil e no mundo levou os realizadores do cinema de não ficção a reinventar suas práticas, incorporando recursos digitais próprios dos campos experimental e ensaístico, sobretudo da videoarte. Esse movimento ampliou a exploração de novos suportes, dispositivos e horizontes estéticos. Por outro lado, diante de certo esgotamento de modelos tradicionais, o cinema de ficção passou a se aproximar de práticas documentais, adotando com frequência o estilo naturalista, o coloquialismo, a participação de não atores, o uso do som direto e de locações reais como formas de conferir autenticidade às narrativas. O cinema “baseado em fatos reais” também se apoia nessa interface, desenvolvendo uma dramaturgia voltada para o público e recorrendo a experiências fabulares que, muitas vezes, espetacularizam a realidade.

Está em pauta, portanto, a diferença ontológica entre documentário e ficção, em um momento no qual as noções de verdade e mentira são colocadas em questão e o cinema independente procura encontrar sua voz íntima e sua luz própria. Ao dialogar com a tradição e incorporar novas tecnologias da imagem, o audiovisual contemporâneo constrói sua identidade a partir da interação dinâmica entre essas duas modalidades.

Conforme aponta Robert Stam, professor da Universidade de Nova York, a hibridização entre documentário e ficção também se evidencia na multiplicação de termos que sugerem aproximações entre esses campos, como “documentira”, título de um filme de Agnès Varda; “documentário de ficção”, expressão presente em artigo de Jacques Rancière; e “realidades ficcionais”, associada ao cinema de Frederick Wiseman. Ao discutir essa diferenciação, Stam dialoga com o pensamento do teórico francês Roger Odin, que reconhece a “distinção entre modos de ficcionalização e documentalização, ou entre operações ficcionais e documentais”. Também recorre a Christian Metz, para quem todos os filmes possuem uma dimensão ficcional, na medida em que resultam de processos de edição e mediação. Em sentido complementar, todo filme preserva igualmente uma dimensão documental, pois registra corpos, espaços, gestos e elementos existentes diante da câmera.

Nessa perspectiva, a oficina pretende examinar essa tendência e oferecer referências conceituais e alternativas criativas a participantes e realizadores interessados em pensar e ultrapassar os modelos tradicionais do documentário e da ficção. Serão apresentadas experiências que combinam diferentes gêneros e estruturas narrativas, transitando entre os planos sensorial e realista e recorrendo a métodos inventivos, em diálogo com a fenomenologia da percepção e com a dimensão formal e espetacular do cinema.

Por meio de exercícios, leituras e exibições de trechos emblemáticos de filmes que exploram a hibridização das linguagens, a oficina discutirá estratégias narrativas e dramaturgias capazes de desestabilizar as fronteiras entre o cinema documental e o ficcional. A proposta é oferecer uma visão panorâmica e reflexiva da produção contemporânea, com ênfase na pesquisa formal e nos processos de criação de autores que reelaboram e desvelam o “real”, como Johan van der Keuken, Abbas Kiarostami, Pier Paolo Pasolini, Jean-Marie Straub, Jean-Luc Godard, Robert Bresson, Agnès Varda, Harun Farocki e Chris Marker, entre outros.

Conteúdo programático

  • A gênese documental: A contribuição de Alberto Cavalcanti.
  • O filme-ensaio e o cinema não ficcional: a mise-en-scène e o uso de não atores.
  • O diálogo com a videoarte: os recursos do videomapping.
  • A falsa ficção: a fronteira entre as linguagens documental e ficcional.
  • A Linguagem Jornalística:  A lógica linear e cronológica, a “Voz de Deus”.  
    O documentário-verdade e Observacional: A revolução tecnológica.
  • O Tema x Método:  A primeira pessoa no Discurso Documental.
  • A Forma x Conteúdo: o documentário moderno, A Visita e a entrevista
  • O documentário Performativo: A encenação como investigação do “Real”
  • A Reencenação: O Fato x Ficção no cinema de Rithy Panh
  • A ficção na Etnopoética de Jean Rouch: o Corpo e o Transe.
  • O Falso Documentário ( A paródia como negação do “Real”)   
    Os limites entre a Ética e a Estética: além da moral.
  • O Metadocumentário: o autor como personagem-tema)
    A Narrativa Sensorial:  O silêncio e a Paisagem Sonora.        
    A “Reciclagem Histórica”: A Vanguarda Ensaística e Cinema de Intervenção, com a   exibição e comentário de trechos de filmes de dos cineastas austríacos Peter Tscherkassky e Martin Arnold além do cineasta alemão Matthias Müller;
  • A Dramaturgia Formal: o Perspectivismo e a Polifonia.
    Remontagem: as vozes descontínuas de Trinh T. Minh-ha.
  • A montagem como personagem: o Documentário de Invenção
  • A autorrepresentação, a Autoficção : “Eu é um outro”.
  • O Anti-Documentário ( expressões contemporâneas )
  • A Montagem x Desmontagem: Conceitos de Eugênio Bonet e A. Pelechian.

Exercício Prático: Sessão comentada dos “Autorretratos” dos alunos.

*OFICINA PRESENCIAL EM BELO HORIZONTE

Currículo do Convidado

Cineasta, pesquisador e mestre em cinema (UFF/RJ), Joel Pizzini é autor de ensaios documentais premiados internacionalmente como Caramujo-Flor (1988), Enigma de Um Dia(1996), Glauces (2001) e Dormente (2006), Joel Pizzini conquistou com 500 Almas (2004) e Anabazys (2009), além da seleção oficial no Festival de Veneza, os prêmios de Melhor Filme,Som, Fotografia, Especial do Júri, Montagem,  nos Festivais do Rio, Mar Del Plata, e Brasília. Pizzini foi artista residente da Unicamp e do Fórum da Berlinale, no projeto Living Archive. Trabalhou como Curador da Restauração da obra de Glauber Rocha. Participou do projeto Artecidade e da Bienal de São Paulo, Mercosul com videoinstações e direção de performances. Diretor de Elogio da Graça (Grande Prêmio do Cinema Brasileiro) e Mr.Sganzerla, vencedor do Festival É Tudo Verdade (2010) e HBRFF em Los Angeles.  Dirigiu o filmensaio  “Olho Nú” (sobre Ney Matogrosso), co-produzido pelo Canal Brasil, premiado como melhor filme do Festival In-Edit e  FestCine América do Sul e selecionado oficialmente para o Doc Lisboa, e Festivais de Havana, Guadalajara, FIPA (Biarritz).  Criou a instalação Ruído no Branco a convite da Fundação Iberê Camargo (RS) e dirigiu “Mar de Fogo”, selecionado para a competição da Berlinale, (2015) e Mostra Internacional de São Paulo além de Elogio da Sombra selecionado exibido em Oberhausen.

 Em 2017 dirigiu Rio da Dúvida, sobre a Expedição Rondon-Roosevelt e em 2021, o filmensaio Zimba, lançado no É Tudo Verdade e exibido na GlobonewsTudo. Atualmente finaliza Depois do Trem e prepara o documentário Coisal, sobre a poética de Manoel de Barros. Assina ainda a produção dos filmes Madalena e as Séries O Menino que Engoliu o Sol e Fronteiras Fluidas.