CINEMA LATINO-AMERICANO: O QUE SERÁ?

A maioria dos países da América Latina, em 2026, atolou em regimes de direita, uns mais extremados em suas pautas, outros mais focados na economia, voltados para os ditames do mercado e das iniciativas privadas. Isso significa, em teoria e prática, um aumento descarado de cerceamentos políticos e sociais de natureza elitista, racista, homofóbica, xenófoba e misógina na relação com qualquer abalo aos valores culturais, patriarcais, brancos e heteronormativos nas respectivas sociedades. 

Nesse ciclo retrógrado, apoiado pela gestão Trump nos EUA, a Argentina teve eco maior, com um governo já em andamento, de Javier Milei, mas outros países estavam, ou passaram a estar, no mesmo espectro político, com suas diferenças caso a caso. No Chile, Peru e Colômbia, houve uma guinada — de governos progressistas a governos conservadores. Todos se encontram em um discurso forte de combate à violência, às mudanças comportamentais nas sociedades, à perda de uma ordem anterior, aos investimentos públicos e sociais, às políticas de igualdade de gênero e raça, sem espaço para as diferenças e divergências.

El Salvador comanda o direitismo da América Central, com o governo de Nayib Bukele, ídolo direitista da América Latina, ao lado do argentino Milei, ambos de joelho para Trump. Bukele chegou a receber, em suas atrozes prisões, prisioneiros venezuelanos, enviados pelos EUA. Cuba e Venezuela, ambas no extremo oposto de Bukele, mas com regimes também centralizadores e de liberdades controladas com mão de ferro, foram asfixiadas pelos EUA: a primeira pela economia, sem condições de sobreviver sem mudanças profundas, sem eletricidade e combustível, e a segunda por uma intervenção militar direta, que terminou no sequestro do presidente Nicolás Maduro, seguido de um regime de co-gestão (sobretudo em relação ao petróleo).

Os países latino-americanos, ainda com governos mais progressistas, como Brasil, México, Uruguai e Guatemala, também estão ameaçados por mudanças radicais, sabotagens políticas e uma oposição entreguista, que, em suas alucinações, sonha com uma intervenção dos EUA, se não com a privatização dos países por empresas estrangeiros. Exagero catastrófico? Pior que não. Tudo depende dos próximos passos do andar da carruagem e, em matéria de andar da carruagem, a imprevisibilidade nessa parte do mundo é um vetor fundamental. Não que surpreenda, porque as ações estão dentro das probabilidades de acontecer nesse cenário geopolítico, mas ainda espantam. 

O que isso tem a ver com o cinema latino-americano ou, mais especificamente, com o cinema dos países da América Latina? Em tese, tudo a ver: com a retirada dos investimentos e das políticas públicas, uma das bandeiras de regimes de direita neoliberal, o cinema, assim como outras artes e atividades culturais, começa a definhar economicamente, com recuo das atividades, mas não significa que os filmes deixam de ser realizados. Na prática, veremos em breve, se isso vai ocorrer, se será necessário. Historicamente, mesmo em anos recentes, já conhecemos essa história: menos investimentos públicos na atividade, perseguição a filmes críticos e, na contramão, uma insubmissão, menos ou mais consciente, de quem realiza. Apesar de serem enfraquecidos oficialmente, os filmes reagem a seus modos nas telas.

As escolhas cinematográficas tendem a também ser, em alguma medida, afetadas e estimuladas pelas conjunturas políticas, sociais e econômicas, sem necessariamente serem reflexos e representações diretas destas conjunturas. Nada é tão espelhado assim. A atmosfera geral, porém, muda o oxigênio, inclusive da criação. As estruturas de financiamento público, de regulação do setor e de garantias de diversidades, mais moldadas pela política oficial, dependem diretamente dos rumos políticos e eleitorais. O que se vê, em anos recentes, é um vai e vem. Uma oscilação complexa de ser mantida e superada de tempos em tempos. O cinema latino americano, nesse sentido, vive em vulnerabilidade, se não permanente, certamente constante. E talvez seja nossa condição: a instabilidade como modo existencial e político. Tudo é para hoje. Amanhã, não sabemos.

Diante desse quadro de retrocessos e estagnações em andamento ou logo adiante, o cinema latino americano e a América Latina encontram-se com uma visibilidade nebulosa ao olhar para frente: O que será? Nenhuma resposta cheira à confiança. Será preciso atravessar as dúvidas e as incertezas de nosso tempo. Nenhuma sociedade nos variados países têm um acordo coletivo e cultural de apoiar determinadas políticas progressistas e um cinema e outras artes com maior diversidade de propostas, de proponentes e de visibilidades em diferentes telas (para além de Cannes, Netflix, Amazon, etc)

“O que será?” é título de uma canção de Chico Buarque, gravada em 1976, 50 anos atrás, com três versões distintas, que compôs a trilha musical do filme Dona Flor e Seus dois Maridos, adaptação de Jorge Amado dirigida por Bruno Barreto e um dos maiores êxitos comerciais do cinema latino americano. Duas das versões foram interpretadas em dueto por Chico Buarque e por Milton Nascimento nos álbuns Meus Caros Amigos, de Chico, e  Gerais, de Milton, ambos de 1976. Uma terceira foi gravada por Simone para a trilha de Dona Flor. No início da canção, interroga-se: “O que será, que será?”.

As incertezas da vida dão o tom para uma trilha musical que extrapola o lado pessoal e ecoa um panorama político latino-americano. O Brasil vivia em 1976 já 12 anos de uma ditadura militar, então presidida por Ernesto Geisel. A Argentina sofreu no mesmo ano seu golpe militar de Estado, comandado pelo general Jorge Rafael Videla. Era o momento da Operação Condor, uma aliança plurinacional de eliminação de vidas de opositores esquerdistas pelos governos de Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai,  Bolívia e Chile. Dois terços da América Latina estavam sob ditaduras militares.

Também foi o ano da morte em acidente de carro do ex-presidente Juscelino Kubitschek, depois investigada e confirmada como assassinato político da Operação Condor, uma vez que era ainda muito popular e uma presença incômoda à ditadura no Brasil. Nesse cenário de oxigênio putrefato, o compositor e cantor Belchior gravou o álbum “Alucinação”, ainda em 1976, cantando as angústias da juventude latino-americana. E o cinema? Em boa parte, também caminhava pelas questões políticas e de denúncia, em geral de modo alegórico.

O que 1976 tem a ver com 2026? Muito e pouco. Muito se considerarmos o ambiente da geopolítica latino-americana nos dois momentos separados por 50 anos. Pouco se formos fundo nas especificidades de cada país nesse momento e naquele outro. Em comum, as incertezas, o futuro nebuloso, o cinema como expressão de seu tempo e de seu lugar, sem ser sintoma ou mero reflexo somente. Mas um outro direcionamento da pergunta – O que será? – amplia as diferenças em relação ao cinema latino americano dos dois tempos.

Em 1976, tinha-se uma visão mais unitária, apesar de idealizada, do que era cinema latino-americano, ainda moldado pela noção de Nuevo Cine Latino-Americano, com sua consciência de combate político e de denúncia, em escala grande ou particular. O cinema de autor da região era — idealmente — empregado como arma de combate e – não menos idealmente — como forma de integração da América Latina.  Hoje, no máximo, perguntamos: O que será o cinema latino-americano? Muitas coisas, certamente, algumas em confluência, outras não. Mas já não era e sempre foi assim? Pode-se dizer que sim, sempre foi, mas, discursivamente, parecia mais homogêneo, não nas formas particulares, mas nas intenções gerais.

O que mudou? A principal mudança é a individualização das proposições dentro dos próprios países e entre os diferentes cinemas dos diferentes países. Cada filme é um filme em si, cada autor busca seu lugar nos festivais e nos mercados autorais. A noção de bloco cinematográfico está mais enfraquecida e se respira um oxigênio mais livre em certo sentido, sem obrigações nacionais ou de nenhuma ordem, apesar das pautas e dos temas mais urgentes e mais estratégicos para as visibilidades de cada filme. O cinema latino-americano com o qual tomamos contato na seleção e na programação do Cine BH em 2025 e em 2026 é composto de muitos cinemas diferentes e distintos, todos de alguma forma envolvidos por seus territórios filmados, talvez até mais que investidores em personagens, em narrativas e em dramaturgias. 

É um tempo de paradoxos convictos no interior e no exterior do cinema. Há, de um lado, um culto à individualidade e à singularidade não negociadas. Um mito. Nada é igual a nada. Cada caso é um caso, cada pessoa é uma pessoa, cada filme é um filme; nada é agrupável. Por outro lado, no cinema e fora dele, existe uma revalorização das questões estruturais, de forças modeladoras de comportamentos, de escolhas formais, de modos de representação.Tudo é estrutural. Nada é caso a caso.  A autoria nunca foi tão cultivada e tão questionada ao mesmo tempo. Tudo é singular e nada é. Esse paradoxo, longe de ser inibidor de qualquer coisa, é estimulante. 

A ideia de questão nacional, se ainda persiste, não é mais dominante. O foco está mais circunscrito nos territórios, dentro das casas, em relações específicas, familiares ou afetivas, com as camadas sociais, políticas e históricas amalgamadas à uma camada psicológica e subjetiva. As formas mais frequentes de cinema variam entre o uso das imagens de arquivo (pessoais ou não), a aproximação documental e poética de fundo antropológico (o “outro” permanece), as estetizações de toda ordem (formalismos latino americanos em andamento), o uso da primeira pessoa e das câmeras pessoais (apenas sintomáticas do tempo histórica e eventualmente expressivas de um tempo estético), as questões de deslocamento e de migrações por dentro da extensão territorial (ampliada pelo trânsito de venezuelanos pela América do Sul e de centro americanos em direção ao México), as investigações dos vestígios reveladores dos passados, seja por imagens encontradas ou por ossadas, objetos e outros sinais do passado desenterrados. Um cinema sempre olhando para dificuldades, para suas superações ou para suas derrotas, para seus fantasmas e para seus zumbis, quase sempre em tom melancólico ou dolorido, mais que raivoso. Há um luto como tom maior, mesmo nas resistências.

Isso pode ser uma primeira chave de aproximação com essa produção contemporânea do México ao Uruguai, mas não pode ser tomada como a característica maior dessa produção. Quando se sai deste cercadinho dos filmes independentes, baratos, fora dos streamings e do mercadão cinematográfico, composto de autorias em início de suas filmografias e das formas menos telegrafadas e reconhecíveis, encontramos outros cinemas latino-americanos, mais industriais ou dispostos a sê-lo, com referenciais localizados acima do México, sem necessariamente estarem rompidos com as tradições de cinema populares locais/nacionais. A afirmação de um cinema como sendo a síntese de uma produção significativa em volume é necessariamente a exclusão de outros cinemas no alcance dessa categoria (cinema latino americano, cinema da América Latina). É justamente essa variedade de difícil síntese que compõe esse universo latino americano de filmes e sociedades. Não existe pureza possível. Apenas misturas em conflitos.

O que será?, nossa temática em 2026, portanto, tem essa dupla face. O que será das sociedades e dos cinemas da América Latina nos próximos anos? O que será o cinema latino-americano contemporâneo após o fenômeno Agente Secreto? Se mal conhecemos essa produção em seus pormenores e ignoramos as especificidades e complexidades de cada país e de cada sociedade, como nos colocamos como conhecedores dos cinemas latino-americanos, se o que acessamos é apenas uma pequena parte do todo? Ignorar com franqueza é preciso para se buscar os conhecimentos possíveis de serem obtidos e não sair dando respostas e emitindo futurologias que não duram mais que uma conversa sem sustentação alguma.

Cléber Eduardo
Coordenador curatorial