Em sua 6ª edição, a Mostra A Cidade em Movimento traz como perspectiva a ideia de comum no cinema, convocando as relações entre filme, processo e cidade na construção de um sentido de comunidade. Uma comunidade que partilha o fazer, a experiência e o compromisso político das imagens. É possível pensar uma comunidade de imagens que dialoga com as práticas e fazeres coletivos que movem a cidade? Como os gestos de produção coletiva e compartilhada se inscrevem nos filmes que a cidade produz, não apenas do ponto de vista temático, mas também na forma, na narrativa e nos processos de criação e distribuição dos filmes? Por meio de tais provocações, a Mostra direciona seu olhar para a cidade compartilhada entre os sujeitos e as coletividades que produzem a experiencia cinematográfica. Onde filmar não é o ato primeiro (aquele de produzir um filme), mas “um ato com”, um gesto comum. Onde as imagens se abrem à coletividade,tomam posição e surgem no mundo não apenas para torná-lo visível, mas também para constituí-lo e transformá-lo.

SESSÃO BAIXO CENTRO

A primeira sessão, Baixo Centro, exibe o longa-metragem Amador, de Cris Ventura, nele o ato de filmar com é não apenas constituinte do filme, mas condição para que ele exista.Uma série de relações de partilha são postas em cena numa escritura que nos convida aconhecer Vidigal, se interessar por ele, e por meio dele adentrar o universo da arte, da trajetória de vida na rua e da própria cidade. O personagem e a diretora, a cidade e o filme, a arte e a vida, a loucura e a lucidez. Para conhecer uma cidade é preciso reconhecer os corpos e lutas que atravessam sua história. Vidigal vive na memória da cidade, é fruição estética, aula de arte, um convite à poesia, um brinde à vida que existe enquanto algo ainda pode acontecer.

Roda de Conversa ao vivo com a participação da diretora do filme e convidado especial sobre a temática da sessão no dia 29 de setembro, quarta-feira, às 19h.

SESSÃO MÁTRIA AMADA

Mátria Amada, segunda sessão da Mostra, nos provoca a pensar sobre o que resiste entre o lugar social da mulher e o papel estruturante do ser mãe. Ao organizar filmes que colocam em contraste o desejo e a obrigação do amor parental, a sessão busca discutir e,em alguma medida, implodir paradigmas de um sistema masculinamente organizado.No curta-metragem Sessão 27, de Haendel Melo, quem pode ouvir essa mulher? Em Casa Número Zero, de Breno Mesquita, o materno se desprende do lugar da mãe e ganha outros contornos familiares. Em Aurora, de Leo Ayres, sequências de uma câmera que insiste em mostrar a mãe. Em Conselheira, dirigido por Rafael Bacelar, com atuação de Juliana Abreu, conhecemos a artista, a mulher, a mãe e a mãe solo desempenhando todos esses papéis simultaneamente. No filme Ela, Dora, de Franco Dafon e Renata Victoriano, o retrato de uma mulher mãe que subverte o destino. Ao escrever sobre essa sessão, o programa de edição de texto insiste em corrigir a grafia mátria para pátria. Sinal de que ainda há muito caminho a percorrer, sintoma de uma sociedade que exalta o patriota e o patrão em detrimento às lutas maternas, feministas e transfeministas que reivindicam outros lugares sociais, espaços de partilha mais oxigenados e meios de reparação das violências e injustiças cometidas pelo patriarcado historicamente.

Roda de Conversa ao vivo com a participação dos diretores dos filmese convidado especial sobre a temática da sessão dia 30 de setembro, quinta-feira, às 19h.

SESSÃO CONTRA PODER

Na sessão Contra Poder, formas de vida, luta e arte observam e denunciam os planos de destituição e subtração das vidas praticados pelo Estado neoliberal e suas megacorporações e instituições. No filme de animação Dinheiro, de Sávio Leite e Arthur B.Senra, histórias que o papel-moeda pode contar. Em Cidade Analógica, de Eduardo DW e Álvaro Starling, a poesia convoca a cidade a mostrar seus contrastes. [O Vazio que Atravessa], de Fernando Moreira, acompanha histórias de vida em meio ao crime ambiental de Brumadinho. Em Opção do Tomo, de Antônio Beirão Xavier, vemos o trem que transporta minério de ferro e, apesar do barulho, é preciso escutar a voz que denuncia os impactos dessa atividade predatória. No filme O Resto, de Pedro Gonçalves Ribeiro, ao dizer daquilo que se perde, afirmamos o que é preciso localizar, ressaltamos a história reconhecida como memória viva. Até quando vamos nos perguntar “até quando”?

Roda de Conversa ao vivo com a participação dos diretores dos filmes e convidado especial sobre a temática da sessão dia 01 de outubro, sexta-feira, às 19h.

SESSÃO TEM DIFERENÇA

Uma cidade, um bairro ou uma escola traduzem a história de um país ainda A quarta sessão da Mostra, intitulada Tem Diferença, organiza filmes que afirmam a urgência em se demarcar e negritar as diferenças que nos constituem enquanto sociedade. Uma cidade, um bairro ou uma escola podem dizer de um país ainda colonial,permeado por contrastes e violências raciais e institucionais. Mas também podem mostrar pontos de luz que irrompem e atravessam o tecido dessa cidade que discrimina e criminaliza, tecendo, assim, outras formas de ver e enfrentar. No filme Um de Vermelho e um de Amarelo, de Lipe Canêdo, GM & Fr4ad, cenas compostas pelo movimento de zoom da câmera exploram territórios de uma cidade dessemelhante. O que olhar quando se voltam os olhos para fora e o que encontramos quando passamos a olhar para dentro? Em Morde & Assopra, o diretor, ator e performer Stanley Albano usa do humor e da ironia para colocar em questão cenas que se passam na “casa grande” ainda nos dias de hoje.Ditadura Roxa, de Matheus Moura, torna visível uma complexa trama em distintas cores,e nos provoca a pensar sobre racismo, desigualdade, desejo, psiquê e dominação colonial.Para encerrar a sessão, o documentário A Única Coisa que Entendo como Norte É a Liberdade, de Luciana Cezário, adentra o universo da escola e suas singularidades trazendo o afeto como base e a inspiração do educador Paulo Freire como flecha que irradia, alcança e modifica estruturas. Um conjunto potente de imagens que tomam posição e buscam por meio da própria linguagem intervir e transformar o mundo em que vivemos.

Roda de Conversa ao vivo com a participação dos diretores dos filmes e convidado especial sobre a temática da sessão dia 02 de outubro, sábado, às 19h.

SESSÃO SINGULAR

Para encerrar a Mostra, a sessão Singular apresenta filmes que partem de universos particulares, das pessoas e seus modos e meios de vida, para dizer de um lugar também comunitário, tecendo uma trama entre as vivências, a cidade ou a falta dela. No curta-metragem Coletivo, de Wend Fernandes, personagens do transporte coletivo traduzem realidades complexas da vida urbana. O filme Dois, de Guilherme Jardim e Vinícius Fockiss, coloca em diálogo afeto, proximidade e distância. No filme Eu Vi nos seus Olhos, da Janela, Eu Vi, que Era o Fim, de Larissa Muniz, o cotidiano e o dia que passa, lá fora e aqui dentro. Em Escorre, de Thiago Monteiro & Kelly Crifer, confinamento, repetição, amor e solidão. O filme Urdido, de Samuel Quintero, completa a sessão abrindo o universo singular para a cidade que ainda pulsa lá fora. Olhar a cidade é sentir os versos cantados pelas pessoas e personagens que praticam seu cotidiano. Escutar a cidade, experimentar seus movimentos, imaginar aquilo que se passa em cada uma das janelas acesas ao cair do dia.

Roda de Conversa ao vivo com a participação dos diretores dos filmes e convidado especial sobre a temática da sessão dia 03 de outubro, domingo, às 19h.

Com esse conjunto de filmes destacamos as realizadoras e os realizadores que atuampolítica e artisticamente no espaço urbano tomando para si a câmera filmadora etornando visíveis as lutas, os atritos e as subjetividades de uma cidade que vibra, resiste ese organiza, mesmo diante das investidas fascistas que assolam os nossos dias. A Mostra éum convite para pensar uma comunidade de imagens de uma Cidade (em) Comum,fruto da dinâmicacontemporânea entre sujeitos, coletivos, espaços e dispositivos deprodução audiovisual.

Paula Kimo

Curadora