Variações estéticas em movimento
A Mostra Vertentes apresenta um recorte de filmes contemporâneos a partir de caminhos formais, gêneros e escalas de produção bastante distintas. Ficções, documentários, animação e trabalhos que transitam entre registros se aproximam menos por uma orientação estética comum do que pela maneira como definem suas experiências particulares em formas de observar o mundo e o Brasil. Há filmes construídos a partir do território, outros concentrados no corpo e nas relações íntimas, outros atravessados pela memória e pelo luto e aqueles que recorrem ao humor, ao artifício ou às convenções de gênero para lidar com tensões políticas, sociais e especialmente humanas. A variedade é o princípio do conjunto: diferentes maneiras de organizar imagens, personagens, tramas, espaços e desenlaces para que o espectador da 20ª CineBH sinta as direções assumidas por uma produção recente e consciente de seus papéis.
Yellow Cake (PE), de Tiago Melo, usa o termo do título para se referir à forma final do urânio em pó, obtido após o processo de mineração. A narrativa carrega ares de Bacurau (Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, 2019), do qual Melo é um dos produtores associados, e se passa no sertão paraibano. Por lá, um grupo de cientistas estrangeiros, em busca da cura para as doenças transmitidas pelo mosquito Aedes, ronda a cidade de Picuí. Moradores e invasores entram em conflito, numa trama que encontra na montagem e nas paisagens distópicas do sertão paraibano seus pontos altos. Ele reaviva a energia de um Brasil distópico, tão real quanto fantasioso, a partir das tensões visuais e sonoras empregadas em tela, por meio de um jogo de luz bastante único e de uma encenação instável, que fabrica choques e faíscas a partir do encontro diverso das personagens.
Tal qual Azougue Nazaré, longa anterior de Tiago Melo, Yellow Cake reforça a habilidade do diretor em capturar a espacialidade de sua região e torná-la um palco colorido e sensorial, por vezes tenso, primordialmente regido pelo jogo de cena dos atores como força primordial. O filme é protagonizado pela mineira Rejane Faria e conta também com participações especiais de Tânia Maria (de O Agente Secreto) e Valmir de Côco (protagonista de Azougue Nazaré). O filme estreou em 2026 na Tiger Competition do Festival de Rotterdam e teve passagem pelo Los Angeles Latino International Film Festival (Laliff) e pelo brasileiro Olhar de Cinema.
Reparação (BA) é um filme de luto, fotografado em solene preto-e-branco, que perpassa o processo de morte dos pais do cineasta Marcus Curvelo, ocorrido nos últimos anos. Ao longo do trabalho, Curvelo encontra um “tempo morto” singular, que deriva tanto do processo de sedimentação da solidão como também de exorcização e aceitação da morte. A trajetória do baiano Marcus Curvelo tem sido um paradigma no cinema brasilieiro contemporâneo. Com uma dezena de curtas-metragens marcantes, feitos a partir de meados da década de 2010, o diretor combina sarcasmo, acidez e melancolia para versar sobre a arte do fracasso. Seu humor é característico, por vezes mordaz, e pincela a realidade através de situações aparentemente corriqueiras, sem furtar-se de colocar o dedo na ferida ao abordar temas como política, trabalho e racialidade.
Em sua primeira direção solo de longas-metragens, após ter codirigido com Leon Sampaio o irreverente Eu, Empresa (2021), ele burila, em Reparação, ainda mais sua capacidade de construir cenas e situações sentimentais através do mínimo orçamentário e estrutural. O filme ganhou Menção Honrosa do Júri Oficial e o Prêmio da Crítica, cedido pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine), na última edição do Olhar de Cinema. É a reafirmação sólida de uma trajetória artística robusta, com marcas e pigmentos próprios, revitalizando motes e procedimentos presentes em seus recentes curtas-metragens.
Das errâncias da perda e da solidão também se estrutura Leite em Pó, primeiro longa ficcional de Carlos Segundo, vindo de uma bem-sucedida trajetória nos curtas-metragens. Protagonizado por Vinicius de Oliveira, o sempre reconhecido Josué de Central do Brasil (1998), o filme acompanha com delicadeza o luto de um homem após a morte brutal da avó e o quanto ele, perdido na beira dos 40 anos de idade, precisa se compreender como figura masculina sensível num mundo que lhe exige caminhos distintos disso. Também um tipo de pequena odisseia, Leite em Pó adentra por vários sub núcleos dramáticos a partir desse personagem e de suas percepções, tardias mas sempre em tempo. Na luta do trabalho, nas dificuldades da estagnação social e no lodo da autocomplacência, ele vai se deparar com outras intimidades que, entre a melancolia e o bom humor, talvez lhe permitam transitar melhor nessas complexidades da vida quando sua figura de referência não está mais presente.
Produzido por dois dos mais tradicionais estúdios de animação no país — a Otto Desenhos Animados, do Rio Grande do Sul, e a Anaya, de Minas Gerais —, O Filho da Puta (RS/MG), com direção de Otto Guerra, Tania Anaya, Sávio Leite e Erica Maradona, faz sua premiére brasileira no CineBH. Em junho, o filme competiu no AnimaFest Zagreb (de onde saiu com uma Menção Especial do Júri) e no Festival de Annecy, o mais importante do mundo neste formato, onde esteve na mostra Contrechamp, voltada a obras sofisticadas e de traço autoral forte.
Composto por uma visualidade primorosa, com apelo a cenários monocromáticos e cuidadosamente texturizados, O Filho da Puta recupera um ar de Grande Sertão: Veredas para contar a história de Ismael (personagem dublado por Gabriel Martins, diretor de Marte Um e No Coração do Mundo), filho da prostituta mais famosa da cidade. No entanto, Ismael carece de conhecer seu pai. É aí que parte para uma viagem no interior de um Brasil profundo, com pegada sertaneja, atrás do homem que lhe concebeu. Ao mesclar aventura, sensibilidade e comentário social, O Filho da Puta apresenta características marcantes de obras anteriores de seus diretores, no que se desdobra, pouco a pouco, numa aventura sensorial de autodescobrimento, ao versar tanto sobre os homens que partem, abandonando suas famílias, quanto sobre as mulheres que ficam, com as responsabilidades e deveres afetivos.
Pele de Rinoceronte (RJ) concentra-se no chocante assassinato da socialite Ângela Diniz, ocorrido em 1976. Marca a estreia de Marcello Ludwig Maia na direção de longas-metragens, após ter realizado, desde os anos 1990, alguns curtas e médias, dentre os quais destaca-se o documentário Cazuza — Sonho de uma noite no Leblon (1997). O projeto fez sua estreia mundial na competição oficial do 54° Festival de Cinema de Gramado, e sua trama reorganiza a narrativa do thriller policial a partir do viés de uma jornalista investigativa, repórter de um típico tablóide popular, interpretada pela mineira Débora Falabella, que desloca-se até a praia de Búzios a fim de investigar a morte de Ângela.
O elenco é recheado de participações especiais, contando com Camila Lucciola, Naruna Costa e Irandhir Santos. Já o roteiro do filme, em um exercício de pontos de vista, apresenta diferentes miradas da época para o acontecimento, ao fabular um olhar bastante crítico e sistemático para as práticas do feminicídio. Através do flerte entre gêneros, Marcello Maia forma uma paisagem coletiva ao tratar de um acontecimento marcante no Brasil, dirimindo características mais estanques do “drama de época” para tornar Pele de Rinoceronte um filme bastante atual. Com isso, faz do longa-metragem menos um filme de true crime, cercado por fatos, e mais uma experiência jogral e sensorial, à base do thriller, movido pela força de suas protagonistas.
Também inspirado na complexidade do ser mulher numa sociedade como a brasileira e construindo suas mecânicas narrativas a partir de um roteiro depurado que inventa as situações a partir da percepção do mundo, Virtuosas, primeiro longa da catarinense Cintia Domit Bittar, remete ao fenômeno das “tradwives” (esposas tradicionais) que vem tomando a internet. São mulheres de elite que fazem conteúdos para mostrar o orgulho de servirem aos maridos, tratados como os únicos e legítimos provedores de um lar supostamente recatado. Atenta a isso, Bittar escreveu o filme depois de tomar contato com cursos e palestras de mulheres coach que dão lições sobre ser uma “tradwife” e deu a isso os seus toques típicos de humor ácido e provocador, vindos de seu trabalho em curta-metragem.
O filme, que foi exibido no Festival do Rio, tem um trabalho impecável de Bruna Linzmeyer como a líder coach que isola um grupo de mulheres em sua mansão para mostrar a elas como serem belas, recatadas e do lar. Mas, como se espera um thriller como esse, nada será exatamente o que parece, e os desdobramentos virão não pela situação simplesmente, mas pelas próprias contradições e hipocrisias inerentes ao ser humano.
Diretor de longeva filmografia, Pedro Diógenes realizou Adulto/Homem (CE) em um contexto de baixíssimo orçamento. Com equipe reduzida, o cineasta encontra uma solução imagética intrigante. Numa espécie de backstage teatral, um conjunto de vinte atores aguarda para poder fazer o teste para um papel. De modo vagaroso, a câmera passeia pelos rostos que aguardam uma “chance”, enquanto a voz em off permite-nos conhecer características e relatos sobre o ofício artístico de cada um.
Adulto/Homem fez sua estreia mundial na 15° edição do Olhar de Cinema, de onde saiu com o troféu de Melhor Roteiro. É de fato um trabalho de minúcia, não só na operação cinematográfica, na ode de fazer muito com pouco, mas também em termos de escrita, por aquilo que seu dispositivo permite revelar a cada rosto que se apresenta em cena. É mais uma marca da filmografia de Diógenes, acostumado a comentar a condição artística brasileira desde os tempos de Coletivo Alumbramento. Adulto/Homem soma-se a seus trabalhos recentes, A Filha do Palhaço (Tiradentes 2023) e Centro Ilusão (Tiradentes 2025), como mais uma reflexão do fazer artístico enquanto forma não apenas de expressão e existência, mas também e sobretudo ofício e trabalho diante de um mundo estagnado entre a magia do cinema e o desespero de pagar as contas.
Nas ficções experimentais e documentários de contundência, o paulista Cristiano Burlan segue trilhando um caminho de provocações numa filmografia inquieta e constante, certamente um dos realizadores mais prolíficos do cinema brasileiro nesta década. Entre o Sucesso e a Lama (SP) é outra de suas incursões no registro de pessoas à margem do luxo e das benesses da pirâmide social no país. Dessa vez ele acompanha o processo de criação de um álbum musical inédito feito por 16 artistas em recuperação da cracolândia ou moradores da Favela do Moinho. Sob a mentoria de nomes importantes do rap nacional, como Edi Rock, eles participam de ensaios e gravações no Teatro de Contêiner, na região central de São Paulo, onde Burlan os acompanha com interesse e paixão genuína.
Não é um processo simples a nenhuma das partes, muitos depoimentos se revelam no improviso da câmera e, em se tratando de figuras periféricas e no limite das dificuldades financeiras e físicas, haverá uma presença brutal de forças policiais a tentar limitar o pouco que resta daquelas pessoas. Mas é pela arte (a música, o cinema) que eles resistem, e testemunhar isso pelos olhos atentos de Burlan é um novo tipo de impacto que ele nos proporciona. Entre o Sucesso e a Lama ganhou menção honrosa na competição do 33º Festival de Cinema de Vitória, no Espírito Santo, em julho de 2026.
É também de um olhar para a comunidade que o goiano Daniel Nolasco faz Pequenas Tragédias. A partir de dramatizações farsescas de figuras importantes de sua juventude e também com um ator a interpretar o próprio diretor, Nolasco assume muito rapidamente não fazer um filme sobre si, e sim sobre a cidade onde nasceu e cresceu. No interior de Goiás, o município de Catalão volta e meia aparece nos trabalhos anteriores do diretor, seja como paisagem ou referências, mas pela primeira vez ele é de fato protagonista.
Claro que veremos uma gama variada de figuras, e uma das maiores qualidades de Nolasco é a forma ácida e espirituosa como ele cria esses tipos (sempre a partir de lastros de sua memória), mas todo o mecanismo de afetos e interações em Pequenas Tragédias parte de Catalão. A vivência queer numa cidade conservadora, as festas e amores, os sexos e o desejo, o despudor e naturalidade com que o diretor lida com o corpo masculino, tudo isso se soma a um retrato tão melancólico quanto desconfortável (mas também engraçado) de um espaço que só o cinema pode nos dar a ver dessa forma. O filme esteve na competição do Festival de Brasília em 2026.
Se Pequenas Tragédias se estabelece entre a ficção e o documentário a partir das lembranças de Daniel Nolasco, o cearense Fiz um Foguete Imaginando que Você Vinha, estreia de Janaína Marques em longa-metragem, mostra uma mulher, vivida por Verônica Cavalcanti, que, diante de uma situação médica (exame de ressonância magnética), precisa forçar a mente a criar memórias que ela não tem. É uma espécie de anti-Proust, no sentido de que, se o estímulo é que ela se lembre de algo que a tranquilize, ela vai encontrar isso na invenção, na imaginação, num mundo-que-não-foi relacionado à mãe.
Mais do que buscar desejos não realizados, o que a personagem faz é de fato viver memórias que não tem, o que talvez seja uma das mais bonitas metáforas do cinema que se pode pensar. E nisso as dores e anseios vistas no filme ganham potência na abordagem aventureira de uma mente inquieta, na odisseia íntima que a mulher empreende com esse objetivo de ter uma vivência que só se estabelece pela aproximação e liberdade poética. O filme foi exibido no IndieLisboa e saiu como grande vencedor de melhor longa no Olhar de Cinema, em Curitiba, em 2026.
Vistos em conjunto, os filmes da Mostra Vertentes revelam um cinema que encontra diversidade justamente na ausência de uma direção predominante. Entre realizadores em seus primeiros longas e cineastas de trajetórias extensas, aparecem tanto a continuidade de pesquisas desenvolvidas em trabalhos anteriores quanto mudanças de escala, formato e procedimento. Do sertão às grandes cidades, da experiência íntima às comunidades, do enfrentamento direto de questões sociais à fabulação, são obras que procuram formas próprias para lidar com trabalho, perda, memória, violência, pertencimento, desejo e criação artística. Com isso a CineBH quer evidenciar um campo de diferenças, no qual cada filme estabelece seus próprios termos de aproximação com o presente.
Marcelo Miranda
Rubens Fabricio Anzolin
Curadores da Mostra Vertentes