Três Olhares das Argentinas

Clarisa Navas, argentina de Corrientes, tem 36 anos. Está em seu terceiro longa-metragem, O Príncipe de Nanawa, ganhador do festival Vision du Reel em 2025, um dos mais prestigiados eventos de documentário. É uma obra de acompanhamento de uma criança que se torna adolescente na fronteira entre Paraguai e Argentina. A diretora é parte do filme. Ela e seu protagonista têm consciência da imagem e do filme em criação. 

Albertina Carri, argentina de Buenos Aires, tem 53 anos. Está em seu sétimo longa-metragem, Caiam as Rosas Brancas, estreado no Festival de Roterdã em 2025. Não deixa de ser um filme que também gira em torno da imagem (a de uma cineasta pornô com ambições artísticas). 

Lucrécia Martel, argentina de Salta, tem 59 anos. Está em seu quinto longa-metragem, Nuestra Tierra, lançado no Festival de Veneza de 2025. Seu filme parte de imagens de uma cena de crime cometido em uma disputa de terra entre fazendeiros, ex policiais e indígenas do Noroeste da Argentina. 

As três cineastas argentinas, entre as mais importantes e respeitadas neste momento em seu país, compõem a programação Olhares das Argentinas, com seus filmes mais recentes. Lidam com imagens no interior de seus filmes, imagens de pessoas, imagens de um filme em construção, imagens de um crime. Portanto, lidam com olhares. 

São autoras nascidas no fim dos anos 80, no começo dos anos 70 e na metade dos anos 60, de três gerações de cinema argentino. Começaram suas filmografias em momentos distintos do país, sempre em delicada ou degradada situação econômica e política no século XXI. 

Elas filmam questões históricas, territoriais, políticas e sexuais, saindo das familiares situações de um cinema portenho, de Buenos Aires e deslocando o olhar para outras terras, outras personagens, outras culturas, distantes do imaginário da classe média urbana do país. 

Lucrécia e Albertina estrearam em longa metragem no começo dos anos 2000. Integraram o conjunto de autorias conhecidas como Nueva Ola Argentina, resposta em telas de cinema à crise econômica da virada do século XX para o XXI. 

Lucrécia fez queixos caírem com O Pântano, ainda seu filme mais reverenciado. Também despertou um pequeno culto em torno de Menina Santa, seu segundo longa-metragem. Albertina estreou com No Quiere Volver a Casa (2000), chamando atenção do Festival de Roterdã, com sua programação mais ousada (que a média europeia). 

Tornou-se referência de vez com Los Rubios (2003), sobre o desaparecimento e assassinato de seus país durante a ditadura argentina,  abalou alguns olhares conservadores com As Filhas do Fogo (2018), road movie lésbicas e com sexo explícito, que coloca os corpos em prazer acima de qualquer outra questão .

Clarisa dirigiu seu primeiro longa em 2017. É dos nomes mais fortes da constante renovação em seu país. Estreou em cinema com a Nueva Ola Argentina já como referência e emblema. Assim como Albertina Carri (e Lucrécia Martel, ao menos parcialmente), lida com universo feminino e LGBT

Acompanhou um time futebol feminino em Hoy Partido a las 3 (2017), o primeiro, e a relação entre duas jovens lésbicas em um bairro periférico de Corrientes, sua cidade natal, em Las Mil y Una (2020), que abriu a mostra Panorama do Festival de Berlim em 2020. Os dois primeiros filmes foram realizados enquanto já se dedicava a O Príncipe de Nanawa

Lucrécia e Clarisa estreiam em documentários com Nuestra Tierra e O Príncipe de Nanawa, respectivamente, depois de se tornarem conhecidas por suas ficções. Passaram mais de dez anos para desenvolver e finalizar os documentários, período durante o qual se dedicaram a outros projetos cinematográficos. Os filmes pediam esse tempo, não apenas por contingências econômicas, mas da vida mesmo que corria fora das telas 

Nuestra Tierra é uma investigação nada maniqueísta, com ambiguidades em sua reflexão sobre a imagem como documento comprobatório, sobre o assassinato de um cacique da comunidade de Chuschagasta, província de Tucumán, motivado pela disputa de terra entre indígenas e fazendeiros.

O Príncipe de Nanawa acompanha de 2015 a 2024 o protagonista Angel Stegmayer Caballero desde os 9 anos do personagem. O título se refere a cidade fronteiriça entre a Argentina (Clorinda) e o Paraguai (Nanawa), região de comércio e contrabando, na qual o espanhol se mistura com o guarani.

Já a fição Caiam as Rosas Brancas é um filme parcialmente metalinguístico. Acompanha uma diretora de filme pornô lésbicas que tromba com a indústria audiovisual ao receber uma proposta de fazer um filme mais industrial com a mesma premissa erótica. Em vez de entrar no set, cai na estrada com sua equipe. 

Esses três filmes e essas três cineastas tornam as sessões de Olhares das Argentinas um privilégio para a cinefilia de Belo Horizonte. São três obras que, de alguma forma, reagem à destruição do governo de Javier  Milei, empenhado em destruir os mecanismos de fomento e manutenção do cinema argentino. Diante da opressão econômica e política, as mulheres argentinas pegam em câmeras e colocam outras camadas de país nas telas. 

Cléber Eduardo
Coordenador Curatorial