Filmes em rota de invenção

Da mostra de Curtas Brasileiros do CineBH, três são os trabalhos exibidos no Itaú Cultural Play. Organizados por meio de uma noção de criatividade excessiva, filmes com variadas técnicas e abordagens encontram-se na seleção pelo que têm de mais particular: sua pulsão imaginativa.

O mote de HackerLeonilia, de Gustavo Fontenelle Dourado, é justamente a transformação da materialidade em fabulação. Uma senhora de idade, ao cerzir linhas de costura, é capaz de abrir portais imaginários pelo tempo. Num estilo lúdico de animar, o curta-metragem produz faíscas metafóricas entre a realidade banal, a familiaridade ancestral e o futuro encantatório. 

O mesmo se dá em Roteiro para uma fuga, de Priscilla Nascimento, em que a perspectiva da metalinguagem cinematográfica entra em cena. O trabalho reproduz de modo muito particular o gesto de filmar a periferia, à medida que imagina no cinema uma porta de entrada (ou de saída) para contaminar o cotidiano. Aos poucos, o realismo dá lugar à invenção, num imaginário que revela a possibilidade de sonhar em meio ao real. 

Por outro lado, Quando abandonamos a humanidade, o que resta de nós?, com direção de Vita Pereira, aborda o contexto cuir e transsexual por meio de um filme de câmara (em um espaço só) com doses de realismo fantástico. Em chave dramática bem-humorada, a direção do filme impõe doses fabulares costuradas como um elo de superação do luto. A maneira de imaginar vivências periféricas e não-hegemônicas confunde-se com a atitude formal, gerando uma obra de deslocamento e riso singulares.

Assim, a seleção de curtas-metragens brasileiros disponível no Itaú Cultural dá a ver uma gama de contribuições que as fronteiras entre o realismo e a ficção especulativa podem oferecer. Essa é uma tônica muito bem vinda, especialmente ao pensarmos a produção recente de curtas, uma vez que é ferramenta pujante para comentar e burilar as dores e desafios do contemporâneo. Especialmente, como é o feliz caso desses filmes, quando este cotidiano é operado através da inventividade estética e da aposta em radicalismos.

Já os três filmes selecionados para a plataforma referentes à mostra voltada para a produção audiovisual da região metropolitana de Belo Horizonte, intitulada A Cidade em Movimento, abordam temas que pretendem investigar algumas das principais dimensões da existência humana.

Maxita, longa-metragem realizado por Mariana Machado e Ana Maria Machado, conta com a participação de Davi Kopenawa e Ailton Krenak, e traz à tona uma discussão acerca da teconologia da existência. Os povos da floresta nos alertam para obstáculos éticos e biológicos, ao indagar se o atual modus operandi das sociedades urbanas – nomeadamente relacionado à mercantilização do solo –, tende a colaborar com o extermínio das 8,7 milhões de espécies que habitam o planeta.

Na animação Não é sobre pastéis, de Tiago Ribeiro, presenciamos uma constante adaptação de forças sociais que colidem dentro de um ambiente escolar. Por um lado, os habitantes das periferias que, desde a primeira infância, pulsam em suas lutas diárias contra as múltiplas violências. Por outro, membros da sociedade do privilégio que se apropriam do poder impetrado pelo capital.

E, por último, O Maestro, realizado por Vinícius Correia, é um retrato íntimo de José Soares, regente associado da Orquestra Filarmônica de Minas Gerais. Numa era em que vivemos onde impera o excesso mental, o maestro com sua impecável precisão de gestos, faz uma travessia rumo ao desenvolvimento de uma vitalidade equilibrista fundamental, rumo ao resgate do corpo emocional. 

Visto que a nossa condição social está estritamente vinculada à linguagem – quer seja ela verbal, não verbal ou artificial –, é por meio desse conjunto complexo de signos que iremos empregar nossas forças na construção do endereçamento dos sentidos. E, para alterar o rumo da história, que aponta visivelmente para o comprometimento da possibilidade futura de novas existências, o cinema, como uma exímia modalidade da arte, convida a cidade – bem como seu conceito de urbanidade – a materializar novos modos de construir, sustentar e organizar aquilo que reconhecemos como sociedade.

Bruna Piantino
Curadora mostra A Cidade em Movimento

Rubens Anzolin
Curador filmes brasileiros

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