Clássicos do Brasil
Dona Flor e seus Dois Maridos celebra 50 anos em 2026 e por isso foi escolhido para abrir a mais nova seção da Mostra CineBH, a mostra “Clássicos do Brasil”, que anualmente vai exibir um filme brasileiro que esteja celebrando alguma data histórica significativa.
Um dos maiores fenômenos do país, Dona Flor e Seus Dois Maridos, dirigido por Bruno Barreto, adaptado do romance de Jorge Amado e com trilha sonora de Chico Buarque, foi lançado em 1976, durante o período de consolidação da Embrafilme e de fortalecimento de uma produção nacional capaz de disputar o público com o cinema estrangeiro. Barreto, então com 21 anos de idade, estava já em seu terceiro longa-metragem. Aqui ele combina comédia, erotismo, fantasia e observação dos costumes e acha uma forma acessível e vigorosa para trabalhar as tensões entre desejo, casamento, moralidade e cinismo numa sociedade brasilera marcada pelo patriarcalismo.
A Bahia recriada pelo filme aparece como ambientação pitoresca e território de pura identidade brasileira e cenário ideal para os dilemas da personagem-título. Dividida entre a estabilidade oferecida por Teodoro e o desejo despertado pelo fantasma de Vadinho, Dona Flor recusa a obrigação de escolher entre dimensões contraditórias de sua experiência. Na conciliação irreverente entre seu corpo e as convenções sociais exigidas a ela, no trato com prazer e respeitabilidade, realidade e imaginação, o filme mergulha num imaginário quase sincrético, cheio da malemolência bem retratada nas letras de Jorge Amado.
A presença de Sônia Braga, José Wilker e Mauro Mendonça foi decisiva para a força do filme, além de sua sensualidade vibrante, que desafiava, em plena ditadura militar, os códigos conservadores vigentes. Visto por mais de 10,7 milhões de espectadores, o filme manteve por mais de três décadas o recorde de público de uma produção brasileira.
Internacionalmente também foi marcante. Recebeu indicação ao Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro e catapultou o nome de Sônia Braga a uma carreira internacional de décadas. No Brasil, levou vários prêmios no Festival de Gramado. A trajetória do diretor Bruno Barreto também foi positivamente afetada, a ponto de, duas décadas depois, ele ter seu O Que É Isso, Companheiro? (1997) indicado ao Oscar de filme estrangeiro.
Lançado em 1998, no período de consolidação da Retomada, Central do Brasil tornou-se um marco da reconstrução do cinema brasileiro e de sua projeção internacional. Ao combinar vocação popular, apuro formal, a emoção do melodrama e a consciência de uma trama profundamente brasileira, o filme conquistou o Urso de Ouro no Festival de Berlim, rendeu a Fernanda Montenegro o Urso de Prata de melhor atriz e recebeu indicações ao Oscar de melhor filme estrangeiro e melhor atriz. A interpretação de Montenegro, ao lado do jovem Vinícius de Oliveira, conduz uma obra que devolveu visibilidade mundial à produção nacional e demonstrou a possibilidade de conciliar identidade cultural, emoção e ampla comunicação com o público. Foi um grande sucesso que reverbera até hoje e marcou uma espécie de consolidação de prestígio da produção do país depois de muitos anos de desmontes.
Construído como um filme de viagem, Central do Brasil parte do espaço tumultuado da estação ferroviária carioca e atravessa o interior do país em busca de origens pessoais e reconstrução afetiva. As cartas escritas por Dora para pessoas que não dominam a palavra escrita funcionam como testemunhos de ausências, distâncias e vínculos interrompidos, ao mesmo tempo que revelam um Brasil marcado pela migração e pela dificuldade de comunicação. No percurso compartilhado por Dora e Josué, Walter Salles relaciona as paisagens de um vasto interior do Brasil à transformação interior dos personagens e faz do deslocamento geográfico um processo de abertura ao outro.
Na 20ª CineBH, Central do Brasil será exibido em formato de Cine Concerto, preservando todos os diálogos e efeitos sonoros enquanto sua trilha é executada ao vivo por uma orquestra. Com concepção, direção e piano de Anselmo Mancini, a apresentação conta com o Quinteto de Cordas Almai: Alessandro Figueredo, no violino e na rabeca; Anderson Cardoso, no segundo violino; Guilherme Bomfim, na viola; Thiago de Andrade, no violoncelo; Cleber Castro, no contrabaixo; e Thiago Righi, no bandolim e na viola caipira.
Para assegurar a correspondência entre imagem e música, Mancini desenvolveu um sistema próprio de sincronização, com monitoração em vídeo e um songbook que reproduz as composições conforme a edição do filme. Pioneiro no país, o projeto é apresentado como o primeiro Cine Concerto criado a partir de um filme sonoro brasileiro e oferece ao público uma nova experiência com uma das obras fundamentais da Retomada.
Marcelo Miranda
Rubens Fabricio Anzolin
Curadores de filmes brasileiros