Infinita fabulação
Na cidade de Contagem, nos anos 1970, Gilberto (Jean Paulo Campos) e Jacira (Tainá Evaristo) são um jovem casal apaixonado. Circulam por bailes, têm encontros e se aproximam numa serenata organizada de forma desajeitada por Gilberto. Um salto no tempo os reencontra 50 anos depois, agora interpretados por Norberto Novais Oliveira e Conceição Evaristo. Na velhice, os dois compartilham a rotina doméstica, consultas médicas, cuidados com a saúde, conversas e pequenos prazeres da vida de aposentados num bairro de periferia. Mas o insólito resolve adentrar o realismo, e “Se Eu Fosse Vivo… Vivia” é atravessado pelo despudoramento imaginativo de André Novais Oliveira, aqui em seu quarto longa-metragem.
Depois de “Ela Volta na Quinta” (2014), “Temporada” (2018) e “O Dia que Te Conheci” (2023), o diretor mineiro estende sua relação com os lugares e paisagens humanas típicas de sua obra e a observação dos gestos do dia a dia, das relações familiares e afetivas, das maneiras pelas quais o tempo se inscreve nos corpos e nos espaços, da doçura de amar e de dividir tempo e espera.
Em muitos sentidos o filme retoma o curta-metragem “Quintal” (2015), no qual André filmava a mãe (Maria José Novais Oliveira) e o pai em fabulações de si mesmo. Com a partida de dona Zezé, em 2018, André reconfigurou algumas poéticas de seu trabalho. Uma delas foi ter a escritora Conceição Evaristo em “Se Eu Fosse Vivo… Vivia” num papel que talvez pudesse ser de sua mãe, mas que ganha outros contornos, sentidos e uma novas chaves de interpretação numa outra presença. Se Maria José era a extensão direta da vivência íntima de André, Conceição é a entrada de uma figura externa, de fora da família, que se agrega ao universo da Filmes de Plástico como se sempre ali tivesse estado.
Os inesperados desdobramentos do filme ao mesmo tempo confirmam e tensionam o que se imagina ver num trabalho de André Novais. A mesma Contagem das casas, ruas, bares, centros de saúde vira também espaço desconhecido na medida em que Gilberto se percebe mais e mais envolvido num rumo de vida que parece surgir do mais intenso delírio, amplificado pela possibilidade da perda e pelas infinitas camadas da ficção.
“Se Eu Fosse Vivo… Vivia” teve estreia mundial na seção Panorama da 76ª Berlinale, em fevereiro de 2026. Em abril, teve estreia latino-americana no Festival Internacional de Cinema de Cartagena (Ficci), na Colômbia, e foi o filme de abertura do Festival Internacional de Cine Independiente de Cosquín (Ficic), na Argentina. Em agosto, integrou a Competição Latino-Americana de Ficção do 30º Festival de Cinema de Lima, no Peru. Na 20a CineBH, abre o festival em grande estilo, na sua primeira exibição em Minas Gerais, terra dos envolvidos no filme, inclusive de Conceição Evaristo, e reforça a presença constante da Filmes de Plástico, inclusive homenageada aqui em 2019, na trajetória do evento.
Marcelo Miranda
Curador de filmes brasileiros da CineBH