A infinita reserva do imaginário
Pensar o curta-metragem hoje é pensar nas contradições que o cercam. Não somente num sentido estético e narrativo, como também num sentido de produção. A safra de filmes curtos produzidos no Brasil entre 2025 e 2026 provavelmente alcançou números nunca antes vistos. O que não quer dizer que, de fato, se produziu mais do que em outros anos da história recente. Quer dizer, simplesmente, que chegaram aos festivais mais curtas-metragens feitos sob modelos de realização “profissionais”, sobretudo oriundos de territórios não tão comumente presentes nestes certames. Sem dúvida, este dado relaciona-se diretamente com as políticas públicas instauradas no Governo Lula III, em especial a Política Nacional Aldir Blanc (Pnab), responsável por oferecer estrutura e financiamento a diretores e diretoras das mais variadas regiões do Brasil, entre capitais e interiores. No entanto, se falamos de contradição — e, em um processo curatorial, a contradição é sempre um ponto de partida —, é justamente por haver um descompasso entre a quantidade de filmes feitos e a respectiva qualidade desses filmes.
O que não quer dizer que as obras produzidas aos borbotões nesse espaço de dois anos sejam necessariamente ruins, longe disso. Mas chama bastante atenção o fato de que, em meio a uma abundância de realização no cenário nacional, haja um enorme número de filmes com narrativas, imagens e texturas tão similares. Afinal de contas, o mais interessante num processo de visionamento de curtas-metragens é precisamente a possibilidade de se defrontar com o diferente. Ainda mais se levarmos em conta o fato de que estes possuem processos de realização muitas vezes mais livres e menos industriais, inclusive num cenário independente, se comparado aos longas. Quando falamos do “diferente”, não se trata somente de pensar em um “diferente” num sentido regional, racial ou de gênero, mas também no “diferente” estético. Longe de entender que o curta-metragem é uma “porta de entrada para o longa”, mas admitindo a ideia de que, para muitos realizadores, ele também ocupa essa função, esta paisagem de realização, ao que parece, deveria soar muito mais heterogênea, em seus espectros poéticos e narrativos, em suas decisões de mise en scène e em suas escolhas discursivas.
Pois bem, se não é possível dizer que, dentre os filmes inscritos, haja necessariamente uma grande variedade de conceitos, independente de seus juízos qualitativos (que reduzem tudo a bons ou maus filmes), é possível observar uma célebre quantidade de trabalhos que desviam de uma noção mercadológica mais evidente e pretendem aventurar-se nas poéticas de suas construções. Filmes que tecem relação com territórios vastos, com questões de gênero (para muito além de uma superficial exposição de problemáticas) e até mesmo com as desesperanças climáticas, na tentativa de, através do cinema, formular um mundo próprio, não necessariamente explicativo, e muito menos “básico”, mas que fomentam, em suas costuras de linguagem, a possibilidade de imaginar, inclusive sem financiamento e através da experimentação, o valor de uma produção cinematográfica de invenção.
SÉRIE 01
A primeira sessão apresenta Gifs Galore (MG), dirigido por Alysson Matheus, um breve experimento de linguagem que irá tratar justamente de uma noção de “fim de mundo”. Entre as fronteiras do digital e das imagens que aparecem para depois sumir, o trabalho aborda o que seria da Terra após a instauração de um conflito nuclear. Em outro sentido, Windows 51 (RJ), de Sandro Garcia, também escolhe falar de uma noção de guerra, mas dessa vez de uma guerra interna, a do tio do protagonista contra o alcoolismo. Filmado em primeira pessoa a partir da perspectiva da janela de seu quarto, o diretor explora uma relação entre moradia, saúde psíquica e confinamento, jogando entre os limites do corpo e da cena ao filmar o outro. Roteiro para uma Fuga (PE), de Priscila Nascimento, por sua vez, também elabora as instâncias do território a partir de uma relação com o outro, ao explorar, de modo criativo e inventivo, as possibilidades de narração e ficcionalização do real na periferia do Recife. Já Para não ser levada por qualquer ventania (RS), dirigido por Eleonora Loner, também aposta na fronteira entre o sonho e a realidade, ao registrar o espaço de passagem da diretora — Cuba — em meio a eventos climáticos extremos, a medida em que a cineasta costura o luto através de um roteiro inventivo, ao explorar a comunicabilidade com sua falecida mãe. Por fim, Quando abandonamos a humanidade, o que resta de nós?, de Vita Pereira, aborda a vivência periférica de um grupo de amigas travestis numa república, onde passam a encarar episódios fantásticos após a morte de uma das moradoras. Com roteiro espalhafatoso, calcado na arte do riso, o filme condensa uma experiência estética singular ao radiografar tanto uma realidade cuir nas quebradas paulistanas quanto um universo sem limites de imaginação, passível de ser construído dentro de um único espaço.
SÉRIE 02
Na segunda sessão, o conjunto de filmes lida também com noções de profundas de território, em que o registro documental mistura-se com a possibilidade ficcional para cerzir paradigmas a respeito de relações afetivas e sanguíneas. É o caso do documentário Andança (MG), de Ben-Hur Nogueira, cujo olhar cuidadoso concentra-se na espacialidade de sua comunidade, ao registrar o cotidiano da família Vieira, cujo caçula sonha em ser jogador de futebol. Amigos e vizinhos partilham do mesmo espaço, pelo qual a câmera percorre, sob uma textura áspera e ruidosa, bastante particular, com curiosidade e doçura. Em chave mais ficcional, Dia dos Pais (AM), de Bernardo Ale Abinader, atravessa também uma relação familiar, porém fraturada. No curta-metragem, pai e filho encontram-se emocionalmente distantes, mas seus pensamentos se conectam através de uma realidade cyberpunk, onde o laço dos afetos só é capaz de ser restabelecido por meio da imaginação. Tal prognóstico reside também no filme seguinte, o pelotense Ligação à Noite (RS), de Arthur Amaral, mais voltado ao documentário experimental. Nele, as ruas da periferia do Bairro Areal à noite dão textura às ligações de voz entre a família e um homem no cárcere. Diante da prisão física, a dor sentimental da saudade é ilustrada pela quebrada vazia na escuridão. Encerrando a sessão, Trajeto do Desmoronamento (RN), também em via poética singular, dirigido por Helena Antunes, aborda uma questão territorial específica. Ao ser despejada de seu estabelecimento por conta da especulação imobiliária, uma mulher vaga pela praia, entre sonho e realidade, para confrontar-se com as ruínas do próprio esquecimento.
SÉRIE 03
Na terceira sessão, relações de identidade vêm à tona, a partir de projetos que trabalham uma ligação mundana entre conflitos internos das personagens e os processos de autodescobrimento. As plantas sabem o que pensamos (MG), de Sávio Leite, já elabora tal temática a partir do experimentalismo bruto, ao falar da natureza e do desmatamento, numa ótica de realização que entende a flora como entidade pensante do planeta. Da mesma maneira, a natureza é bastante presente em Lena 2026 (PE), de Lanna Carvalho, cuja realização sensível, com decupagem atenta à materialidade dos espaços e à força dos silêncios, tece uma relação de mãe e filha em estágio de passagem e espera, que desdobra-se sempre no que há de descompasso entre ambas. Se a comunicabilidade é uma questão chave para Lena 2026, o mesmo pode-se dizer de Tela Quente (GO), de Silvino Mendonça. Curta-metragem cuja trama se desenvolve em um ambiente de trabalho, numa textura em preto-e-branco, mas onde o ponto de atenção é realmente uma intrigante troca de mensagens homoeróticas entre um dos funcionários do espaço (em primeira pessoa) e um suposto colega de serviço. Nesse sentido, ainda que haja uma comunicação factível, as lacunas dessas mensagens, costuradas de modo positivamente estranho, dão ao filme uma força particular numa relação de identidades e personalidades postas em jogo. Por fim, O Homem-Som (SP), de Giovani Beloto, busca justamente refletir sobre a constituição de seu personagem principal, um técnico de som que possui problemas de escuta. Entre o barulho e o silêncio, com destaque à execução do desenho sonoro do filme, a trama desenha um sutil recorte de classe e trabalho, que, através de pequenas passagens, reflete sobre o que pode haver dentro deste homem que é obrigado a “ouvir a si mesmo” quase que integralmente.
CURTAS NO ALMOÇO
Finalmente, a tradicional sessão de Curtas no Almoço, aborda uma relação especial com personagens femininas, a lidarem tanto com uma ideia etérea de violência como também a reagirem à situações violentas de modo inusitado. É o que se instaura em TV: Entreaberta (MG), animação de Mateus Compart, onde uma mulher é “abduzida” para dentro de um aparelho televisivo, e precisa conviver com as mudanças de estática e de canais, à medida que um apresentador irritante tenta controlá-la. Peixe Morto (CE), de João Fontenele, também aposta na figura feminina como ponto central, a partir de um casal de amigos caminhoneiros que precisa se hospedar em uma casa após percalços na estrada. Decupado de forma sagaz, o filme constrói sua narrativa ao redor de um espaço único, que pouco a pouco ressignifica-se narrativamente, migrando de gênero à medida que o tempo passa. Assim como Subsolo (RJ), de Miwa Yanagizawa e Angel Ferreira, que, à primeira vista, não possui tom tão soturno, mas, ao desenvolver-se, revela um subtexto aguçado e duro a partir de uma conversa entre duas mulheres em situações e circunstâncias bastante parecidas. Duas animações encerram a sessão: Hacker Leonilia (DF), de Gustavo Fontenele, e Paty (MS), de Maria Luiza Staut. Com traços riquíssimos e uma direção de arte extremamente criativa, Hacker Leonilia reafirma, de modo muito pouco usual e bastante criativo, a ancestralidade de sua protagonista, capaz de cerzir universos com a ponta de uma agulha de costura; enquanto isso, no universo de Paty, Maria Luiza Staut utiliza-se de pequenos elementos de animação para costurar um surpreendente filme de vingança feminina, a partir da herança dos filmes de horror.
Tal conjunto de filmes reafirma uma noção de imaginário diante da produção contemporânea de curtas-metragens. São projetos de complexidades e sensibilidades particulares, distantes de uma massa homogênea de produção, feitos com e sem financiamento, mas que, à sua maneira, refletem uma capacidade de imaginar que é sempre importante ter em vista ao pensar no contexto curta-metragista do Brasil.
Marcelo Miranda
Rubens Fabricio Anzolin
Curadores