Hora de compartilhar
Ao longo de suas 16 edições, mais de 480 projetos já passaram pelo Brasil CineMundi, encontro de coprodução e laboratório que se realiza no âmbito da Mostra CineBH. Enquanto representantes de 37 novos projetos e obras em fase de montagem (“work in progress”) participam das atividades do 17º encontro, a Mostra CineMundi, que faz parte da programação da CineBH, se encarrega de mostrar os resultados desse trabalho intenso.
O objetivo é fechar o ciclo de acompanhamento dos projetos e compartilhar com os convidados do festival e com o público de Belo Horizonte os filmes que receberam a contribuição de encontros, mentorias e parcerias firmadas no evento, muitas vezes anos antes da estreia. Nesta edição da 20ª CineBH, dez filmes com passagem pelo Brasil CineMundi integram diferentes seções da programação: três na própria Mostra CineMundi, três na Mostra Vertentes, um na Mostra Praça e três na Mostra Retrospectiva 20 Anos, dedicada às duas décadas do festival.
Na Mostra CineMundi, A Fabulosa Máquina do Tempo, de Eliza Capai – que passou pelo Work in Progress do 16º Brasil CineMundi –, acompanha um grupo de meninas no sertão de Guaribas, no Piauí, cidade escolhida para ser “piloto” do programa Bolsa Família. O filme propõe uma viagem no tempo por meio de jogos em que as crianças tomam conhecimento do passado de pobreza e opressão vivido por suas mães e avós. Depois de sua participação no WIP, o documentário ganhou sua première mundial na Mostra Generation Kplus do Festival de Berlim, onde colheu muitos aplausos e convites para outros festivais internacionais. No Brasil, passou pelo É Tudo Verdade, pelo CinePE e pela Mostra Ecofalante, antes de chegar aos cinemas brasileiros, em julho de 2026. Por suas características singulares e trajetória de sucesso, A Fabulosa Máquina do Tempo será tema de um “estudo de caso” na programação do 17º Brasil CineMundi.
Olhe para Mim, de Rafhael Barbosa (Work in Progress na mesma edição do BCM), se destacou ao apontar para uma emergente e rica cena cinematográfica alagoana. O filme é uma fantasia alegórica sobre um jovem que empreende uma misteriosa viagem, seguido de perto por um pássaro. Estreou na Mostra Competitiva Brasileira do Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba, onde venceu os prêmios de melhor direção, som e direção de arte. Já Nada a Fazer, de Leandra Leal, selecionado para o DocBrasil Meeting do 12º Brasil CineMundi, em 2021, documenta a leitura de Esperando Godot, de Samuel Beckett, feita pela diretora e sua mãe, a atriz Ângela Leal, durante a pandemia, entrelaçando a convivência do período de confinamento à luta pela manutenção do histórico Teatro Rival, no Rio de Janeiro, que pertence à família. Nada a Fazer foi selecionado para a Première Brasil do Festival do Rio e para Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.
A Mostra Vertentes reúne Pequenas Tragédias, de Daniel Nolasco, drama cômico de toques autobiográficos que narra a juventude do diretor na cidade de Catalão, em Goiás, exibido como WIP na conexão BCM-Tiradentes, em janeiro de 2026. O filme foi selecionado para a competição do Festival de Brasília. O Filho da Puta, animação dirigida por Tania Anaya, Érica Maradona, Otto Guerra e Sávio Leite, que passou pelo Work in Progress do 16º Brasil CineMundi, segue Ismael e o cão falante Bacalhau numa odisseia pelo sertão de Minas Gerais, em busca do pai que nunca conheceu e do mar. Depois do WIP, foi selecionado para a competição Contrechamp do Festival de Annecy 2026 e premiado no AnimaFest Zagreb, na Croácia. Virtuosas, de Cíntia Domit Bittar — que passou como projeto no 12º Brasil CineMundi ainda com o título Gente de Bem —, é um terror sobre uma jornalista que se infiltra em um grupo de mulheres cristãs que promovem uma imersão espiritual de luxo, com consequências funestas. O primeiro longa ficcional de Cíntia Domit Bittar participou do Work in Progress “Goes to Cannes”, no mercado de filmes do Festival de Cannes, integrou a Première Brasil do Festival do Rio e recebeu o Prêmio de Aquisição Netflix na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.
Na Mostra Praça, Ana, En Passant, animação de Fernanda Salgado que participou da seção Foco Minas do 10º Brasil CineMundi, em 2019, acompanha uma jovem franco-brasileira que atravessa o Atlântico para decifrar as memórias afetivas deixadas pela avó, ao lado de seu duplo exato. Combinando animação 2D, rotoscopia, colagem e stop-motion, o filme participou do Annecy Animation Showcase, no mercado do Festival de Cannes, e teve sua première mundial em competição no 59º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.
Para celebrar seus 20 anos, a Mostra Retrospectiva revisita três longas que passaram pelo Brasil CineMundi ainda como projeto e também se destacaram na programação da Mostra Cine BH. Corpo Elétrico, de Marcelo Caetano (projeto no 3º BCM, em 2012), retrata a liberdade afetiva e sexual de Elias, jovem paraibano recém-chegado a São Paulo. Começou sua carreira internacional no Festival de Roterdã, passou por Guadalajara, onde recebeu o Prêmio Maguey, e foi selecionado ainda para os festivais Hong Kong, Off Camera, Krakow, BFI Flare e Outfest. Elon Não Acredita na Morte, de Ricardo Alves Jr (4º BCM, 2013), uma jornada insone de um homem pelas ruas sombrias de Belo Horizonte após o desaparecimento misterioso da esposa, foi selecionado para a mostra Bright Future do Festival de Roterdã, venceu prêmios nos festivais de Brasília e Macau (na China), e passou por IndieLisboa, Bafici, Cartagena, Tiradentes e Ficunam. Mate-me Por Favor, de Anita Rocha da Silveira (3º BCM, 2012 ), é um retrato estilizado da adolescência na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, à sombra de uma onda de assassinatos. Teve première mundial na seção Orizzonti do Festival de Veneza e venceu os prêmios de melhor direção e melhor atriz no Festival do Rio.
Pedro Butcher
Curador