Corações em céu aberto
A Mostra Praça leva à Praça da Liberdade uma seleção de filmes brasileiros pensada para o encontro com públicos amplos em sessões gratuitas a céu aberto. Entre comédia, drama, animação e aventura, a programação tem obras de comunicação direta com o espectador por meio de diferentes formas de criação e temas ligados às relações afetivas, ao envelhecimento, à memória, à identidade e ao imaginário brasileiro.
Sexa (RJ) marca a estreia da atriz Glória Pires na direção de longas-metragens. Com passagem pela Mostra de São Paulo e Festival do Rio, é uma “dramédia”, ao melhor estilo das personagens de Pires, em que o processo de envelhecimento feminino é pauta. Montado como comédia de costumes, a trama mostra a protagonista decidindo abandonar sua vida amorosa para tentar reatar laços com o filho ingrato. No entanto, o plano descamba quando Davi, interpretado por Thiago Martins, surge na vida da sexagenária. Entre comentários atuais sobre a relação das mulheres com o mundo, e sobretudo acerca dos preconceitos sociais ao redor dos corpos femininos, Sexa encontra um divertido tom de cena para expressar tanto os anseios de seu universo de personagens quanto às as propostas estéticas de sua diretora e atriz.
A parceria entre o icônico ator, diretor e comediante Miguel Falabella e o experiente realizador Hsu Chien fez de Querido Mundo (RJ) uma das mais bem-sucedidas adaptações teatrais recentes. O projeto é inspirado em peça homônima de Falabella, coescrita com Maria Carmem Barbosa, e encenada ainda nos anos 1990. A trama se passa em algo como um réveillon, a virada de um tempo para outro, mas se dá por meio dos percalços do amor e da violência. Querido Mundo é uma comédia triste, nos melhores moldes do cinema italiano, fotografada num embalsamado preto-e-branco que concede ternura e lamúria a um conjunto de personagens estilhaçados. Demarca, com certeza, o rigor buscado pela dupla Falabella e Chien, em que o teatro é pano de fundo, mas se deixa transformar em cinema pouco a pouco. O filme teve estreia no 53° Festival de Cinema de Gramado e foi exibido na 29°ª Mostra de Tiradentes.
Ana, en Passant (MG), da mineira Fernanda Alves Salgado, é uma animação em técnicas mistas que acompanha Ana, jovem negra franco-brasileira isolada pelo luto após a perda da avó e que vai a Belo Horizonte em busca de suas raízes. Entre andanças e contatos com gentes da cidade, num processo algo similar ao da portuguesa no também mineiro A Cidade Onde Envelheço, de Marília Rocha, Ana se depara com Alice, uma sósia (duplo?), no antigo apartamento da família, e mergulha numa jornada de descobertas afetivas potencializadas pelo impressionante uso da animação. Foi filmado num estúdio de Cataguases, com direção de arte de Marcella Tamayo e direção de animação de Camila Kater, e tem no elenco nomes como Jéssica Pierina, Carlos Francisco, Robert Frank e Odilon Esteves, além da participação especial de Zezé Motta.
Por fim, na sua primeira incursão no cinema infantojuvenil depois de uma série de filmes marcantes de horror, o capixaba Rodrigo Aragão exibe Folclórica (ES), que acompanha a jornada de um saci que nasceu com a perna esquerda, ao contrário de todos os outros de sua espécie. Ele decide desbravar a terra encantada de Folclórica, acompanhado por seu melhor amigo e de uma curupira, para tentar reverter o que ele considera um problema.
O filme usa bonecos e marionetes para expandir o universo fantástico do cineasta e dar a ver várias lendas tipicamente brasileiras num contexto de filme de aventura e jornada de descobrimento. Com visual arrebatador, todo filmado em estúdios e cativando pelo prodígio técnico no trato dos bonecos, Folclórica foi o filme de encerramento da 33ª edição do Festival de Cinema de Vitória, onde Rodrigo Aragão recebeu homenagem por sua obra, e já nasce um clássico moderno do cinema lúdico no Brasil.
Nessa variedade de gêneros, a Mostra Praça propõe um cinema como experiência coletiva num espaço aberto e público, em filmes de vocação popular e propostas distintas, que certamente serão apreciados por todo tipo de público, de quaisquer idades.
Marcelo Miranda
Rubens Fabricio Anzolin
Curadores da Mostra Vertentes