CineBH: 20 anos, muitos cinemas brasileiros 

Celebrar os 20 anos da CineBH é também olhar para as transformações atravessadas pelo cinema brasileiro ao longo desse período. Essa retrospectiva comemorativa reúne obras que permitem acompanhar algumas das principais movimentações dessas duas décadas: o fortalecimento de cinematografias produzidas fora dos centros tradicionais, o surgimento de novos realizadores, a expansão do documentário, a renovação do cinema de gênero, a afirmação de diferentes presenças e espaços e a presença crescente dos filmes brasileiros no circuito internacional. Sem pretender encerrar esse percurso num panorama definitivo, a seleção recupera trabalhos que dialogam com distintos momentos da própria CineBH e que permanecem fundamentais para compreender a vitalidade, as tensões e a diversidade da produção no país.

Elon Não Acredita na Morte (2016) é o primeiro longa-metragem de Ricardo Alves Jr. Realizador importante para o cenário do cinema mineiro e brasileiro, Ricardo havia costurado até então uma obra calcada nas forças do corpo e do espaço, com destaque para o curtas-metragens Material Bruto (2006) e Tremor (2011), ambos com presença da figura de Elon Rabin, sujeito motriz para a concepção de Elon Não Acredita na Morte. Em uma Belo Horizonte escurecida e filmado à moda das luzes neon, o protagonista interpretado por Rômulo Braga vaga pela cidade atrás de sua esposa desaparecida, chamada Madalena (Clara Choveaux). Pelo caminho, uma série de figuras despontam à sua frente, gente de toda a espécie, que faz do cosmos belorizontino uma cidade ao mesmo tempo amaldiçoada e afeitçoada. O filme passou pela competição do Festival de Rotterdam e também levou troféus no 49° Festival de Brasília, incluindo a láurea de Melhor Ator para Rômulo Braga.

Santiago (2007), de João Moreira Salles, figura como um marco no cinema brasileiro, por inúmeras razões. Uma delas é o período de feitura da obra, que ajudou a consolidar o Cinema da Retomada, recuperando prestígio internacional aos trabalhos do país. Em outro sentido, Santiago também é o “ponto final” de um conjunto de documentários importantes realizados por Salles entre 1999 e 2004, em que o ponto de destaque é o filme Entreatos (2004), que acompanhou a corrida presidencial do então candidato Luiz Inácio Lula da Silva em seu primeiro mandato. No entanto, se nos trabalhos anteriores de Salles havia um desejo político de implicação no agora, Santiago parece-se mais com Nelson Freire (2002), um retrato sentimental e íntimo de uma figura singular. Mordomo de sua rica família durante muitos anos, o personagem que dá título à obra traz características singulares, em seus modos de agir e pensar. João Moreira Salles filmou seu empregado em 1992, mas deixou o material de lado, considerando-se incapaz de montá-lo à época. Anos depois retomou o projeto, dando origem a um dos filmes mais estudados de seu tempo, especialmente pelo que coloca (e deixa de colocar) em cena, e pela maneira como investiga o sujeito em frente e atrás das câmeras, revelando cortes, matrizes e discussões que se tem quando se filma um outro que é, ao mesmo tempo, tão íntimo e tão distante.

Marcelo Caetano fez uma importante trajetória no cenário do curta-metragem brasileiro — onde destaca-se Na sua companhia (2011) e Verona (2013), co-escrito com Hilton Lacerda — até que estreasse no longa-metragem. Foi também produtor de elenco de Aquarius (Kleber Mendonça Filho, 2016) e assistente de direção de Boi Neon (Gabriel Mascaro, 2015). Esse currículo fez de sua primeira incursão no formato longo uma aguardada estreia, que se deu justamente com Corpo Elétrico (2017). O filme fez première mundial no Festival de Rotterdam e também passou por certames importantes como San Sebastián e Guadalajara, de onde saiu premiado. A premissa do filme é inspirada em um poema de Walt Whitman, chamado Canto do Corpo Elétrico. A trama da obra adapta a lírica do gigante estadunidense para retratar o cotidiano do jovem Elias, recém-chegado em São Paulo para trabalhar como designer numa fábrica de tecidos. Sua personalidade solar, somada a um elenco variado e jogral, funcionam com grande força na fabricação de uma jornada que pouco a pouco vai se adensando, em que o ponto de chegada importará menos que a própria trajetória em si. Não só no contexto do cinema cuir, mas de modo amplo nas produções brasileiras, Corpo Elétrico marca o começo da trajetória de um talento importante do cinema de nosso país.

Os últimos anos do cinema brasileiro independente se confundem com a carreira de Tavinho Teixeira, ator emblema de produções que marcaram época, como Aquarius (2016), Carro Rei (Renata Pinheiro, 2021), Propriedade (Daniel Bandeira, 2023) e Morte e vida Madalena (Guto Parente, 2025). Contudo, para além de sua profícua presença como ator, Tavinho Teixeira produziu algumas obras fundamentais enquanto diretor e roteirista. Batguano (2014) já preconizava um dos mais célebres momentos do cinema independente, a partir da chave do deboche e da avacalhação, em constante diálogo com a tradição do cinema brasileiro — especialmente o Marginal. Em seguida, ao lado da filha Mariah Teixeira, Tavinho co-dirigiu o incensado Sol Alegria (2018), misto de filme de ação com ficção científica, passado em um Brasil distópico, em que uma família precisa salvar o país de sua aniquilação. Feito em momento político extremamente tenso, marcado pela ascensão da extrema direita na América Latina (e no mundo), Sol Alegria joga com os códigos do riso e da alegoria para desbravar um país em colapso. O faz ao melhor estilo de nossas produções, num misto de aventura experimental e verve teatral, em que nunca foge dos problemas, e escolhe a carnavalização dos sentidos e dos afetos para versar acerca de um país em deformação. É um filme do futuro, que merece sempre ser revisitado.

Realizado em 2009, num momento de particular vitalidade do documentário brasileiro e de expansão da produção cinematográfica para além dos centros tradicionais, A Falta que me Faz integra uma geração de obras que deslocou o interesse dos grandes acontecimentos para as experiências ordinárias, os gestos e as formas de convivência. Ligada ao núcleo mineiro da produtora Teia, à época um dos principais núcleos criativos do audiovisual no país, Marília Rocha acompanha jovens mulheres no interior de Minas Gerais numa abordagem em que a observação e a intimidade se mesclam ao rigor formal, aos desejos e incertezas, às fabulações e anseios de suas personagens. O filme mostra uma travessia incomum para a vida adulta, juntando a relação da cineasta com aquelas que filma e as experiências de vida de suas retratadas.

Selecionado para a Semana da Crítica do Festival de Cannes em 2007, A Via Láctea surgiu num período em que o cinema brasileiro ampliava sua circulação internacional e diversificava as formas de representar a experiência urbana. A diretora Lina Chamie faz de São Paulo não apenas cenário, mas a própria matéria dramática e sensorial de seu filme. Ela associa o deslocamento pela metrópole a reflexões fragmentadas sobre memória, desejos, medos e descobertas. Num misto de cinema, música e poesia, Chamie faz uma narrativa amorosa no ritmo descontínuo de uma cidade como São Paulo, em meio a congestionamentos, ruídos, interrupções, travas e velocidades. A paisagem urbana é a subjetividade dos personagens, numa espécie de sequência espiritual e ainda mais moderna de São Paulo S.A (1965), de Luiz Sérgio Person.

Já o primeiro longa-metragem de Laís Bodanzky, Bicho de Sete Cabeças, tornou-se, na virada dos anos 2000, uma das obras emblemáticas da Retomada do cinema brasileiro e de sua reconexão com um público amplo. Inspirado no livro autobiográfico Canto dos Malditos, de Austregésilo Carrano Bueno, o filme ao mesmo tempo em que denuncia a violência praticada em instituições psiquiátricas faz um retrato brutal das relações familiares opressivas. Rodrigo Santoro até hoje é referenciado por seu papel aqui, com a câmera próxima a seu corpo e gestos e espasmos, na montagem nervosa e sufocante que tornam o filme algo próximo a um pesadelo.

Também pelo desconforto, mas de outra ordem, Mate-me por Favor, de Anita Rocha da Silveira, exibido na seção Orizzonti do Festival de Veneza em 2015, faz uma apropriação inventiva de gêneros como o horror, o suspense e o filme adolescente. Também num primeiro longa, Anita observa a juventude feminina da Barra da Tijuca a partir de uma combinação de violência, desejo, religiosidade, humor e estranhamento. Ela foge do realismo convencional, mas é profundamente fiel às inquietações de seu grupo de garotas adolescentes.. Corpos, fantasias, medos, curiosidades mórbidas, desejos e obsessões formam o imaginário dessas garotas em meio a ataques de um assassino misterioso. Entre o cotidiano e o pesadelo, o filme antecipou questões e procedimentos que se tornariam centrais na produção brasileira dos anos seguintes e, hoje, parece ainda mais atual

Em outro contexto, lançado em 2008, numa fase de popularização dos documentários musicais brasileiros, Lóki – Arnaldo Baptista ajudou a consolidar esse campo ao recuperar a trajetória de uma figura decisiva e, durante muito tempo, não tão reconhecida na música nacional. Primeiro longa-metragem inteiramente produzido pelo Canal Brasil, com direção de Paulo Henrique Fontenelle, o filme usa arquivos, canções e depoimentos para reconstruir a passagem de Arnaldo Baptista pelos Mutantes e sua carreira solo, incluindo conflitos, rupturas e seus períodos de isolamento. A memória cultural, a pesquisa de arquivo e um forte envolvimento afetivo do espectador com a trajetória difícil do músico fizeram deste um sucesso popular, um dos maiores no cenário documental brasileiro naquela década.

Vistos em conjunto, esses trabalhos compõem um panorama de um cinema que, ao longo desses 20 anos, achou novas formas de representar o país, reinventar gêneros, investigar seus próprios procedimentos e ampliar os sujeitos colocados no centro das imagens. São obras atravessadas por contextos políticos, sociais, culturais e econômicos, aproximadas pela disposição de experimentar linguagens e construir relações singulares com seus personagens e públicos. Ao revisitá-las, a CineBH faz da celebração de sua trajetória um exercício de memória, um retorno ao que marcou época e, ao mesmo tempo, um convite para observar como essas imagens continuam a reverberar no presente e a apontar caminhos para o futuro do cinema brasileiro.

Marcelo Miranda
Rubens Fabricio Anzolin
Curadores de filmes brasileiros