ABECEDÁRIO DA EXISTÊNCIA

A 11ª edição da Mostra A Cidade em Movimento apresenta uma produção que toma a cidade-território como um campo de experiência direta. A cidade atua como um átomo, uma partícula, uma peça fundamental dentro de uma escala mais abrangente que envolve os estados, os países, os continentes, os planetas, as galáxias, e o universo.

A presente mostra, Abecedário da Existência, está dividida em 5 programas que pretendem investigar algumas das principais dimensões da existência humana. Da especificidade do território, passamos pela irredutibilidade das experiências, nos deparamos com a conservação das espécies, afim de revertemos as engrenagens da linguagem, para enfim resgatarmos a nossa versão mais primitiva.

Um dos grandes equívocos da nossa cultura é o de presumir que a inteligência humana nasce no interior da cavidade craniana. Segundo dados da comunidade científica, a verdade fisiológica é diametralmente oposta. A captação de informações não se inicia a partir de impulsos mentais, mas, sim, por comandos sensoriais conectados à epiderme, que percorrem todo um caminho até o centro do corpo, para então se dirigirem ao encéfalo.

Esse tipo de inteligência aferente permite que a humanidade exista no tempo e no espaço com precisão. Nota-se, entretanto, um movimento contrário entre o corpo e a cidade. No corpo, o estímulo caminha da borda para o centro, num movimento ascendente, atendendo à lógica dos lobos cerebrais. Na cidade, o estímulo caminha da borda para o centro, num movimento descendente, atendendo à lógica dos morros urbanos.

Quando alguns corpos se autorizam a desafiar a cidade, eles agenciam aquilo que existe de mais irredutível, autêntico e caótico na atuação humana, rejeitando ferreamente as constrições dos discursos padronizados, dos comportamentos sociais estabelecidos e das manipulações intelectuais. Sua não domesticação é capaz de confrontar a realidade material objetiva, sem tentar encaixá-la à força em conceitos ou sistemas puramente lógicos, porque fazem parte essencial de uma experiência sensível e brutal que abala a ilusão de que a nossa racionalidade controla o mundo.

Somando-se a essa vertente, convocamos o pensamento da floresta. No prefácio do livro A queda do céu de Davi Kopenawa e Bruce Albert, Eduardo Viveiros de Castro emite um alerta: “a ‘alma’ e seus avatares leigos modernos, a ‘cultura’, a ‘ciência’ e a ‘tecnologia’ não nos isentam nem nos ausentam desse comprometimento não desacoplável com o mundo, até porque o mundo, segundo os Yanomami, é um plenum anímico, e porque a verdadeira cultura e uma tecnologia eficaz consistem no estabelecimento de uma relação atenta e cuidadosa com ‘a natureza mítica das coisas’ – qualidade de que, justamente, os ‘brancos’ carecem por completo.”

É preciso alterar o rumo da história, que aponta visivelmente para o comprometimento da possibilidade futura de novas existências. Do mesmo modo que os povos originários compreendem ‘a máquina do mundo’ como esse superorganismo conectado a milhões de seres tangíveis e intangíveis, convidamos também a cidade – bem como seu conceito de urbanidade – a materializar novos modos de construir, sustentar e organizar a sociedade.

Se a nossa condição social está estritamente vinculada à linguagem – quer seja ela verbal, não verbal ou artificial –, é por meio de um conjunto de signos que iremos empregar nossas forças na construção do endereçamento dos sentidos. O português, a língua ‘oficial’ do nosso país, pertencente ao tronco Indo-Europeu, possui signos muito diferentes dos signos das dezenas de famílias linguísticas indígenas existentes, tendo como troncos principais o Macro-Jê e o Tupi. Também as linguagens não verbais, como a corporal, a cinematográfica e a teatral, bem como as linguagens artificiais, empregadas na matemática e na tecnologia da informação, possuem regras internas e particularidades que atendem a um sistema relacional de conhecimento.

Na desconstrução de processos de interação com a simbologia dessa ciência mutante – a linguagem –, estamos aptos a absorver, como cocriadores, a lógica, a arquitetura e os padrões subjacentes daquilo que apreendemos de uma dada realidade. Se aquilo que sentimos na pele chancela a nosssa percepção do real, a engenharia reversa da linguagem se dá pelo processo de decodificação do código-fonte gerado no ato de sua criação.

Todavia, numa era de excesso mental, há que se fazer uma travessia rumo ao desenvolvimento de uma vitalidade equilibrista fundamental. Frequentemente apontado como ponto de ancoragem da alma e sede das nossas emoções, o peito, não por acaso, carrega dois de nossos órgãos mais vitais: o pulmão e o coração. Os mais complexos sentimentos, impulsos e desejos brotam dessa instância primeira que abriga medos e frustrações, mas que também traz à tona a coragem de se viver novos começos.

Resgatar um corpo emocional é um dos processos mais solitários que um indivíduo pode vivenciar. Trata-se de algo que não depende de um desejo externo, mas, sim, de uma confluência de fatores que se entrecruzam a favor de um salto quântico que faz avançar determinada existência.

Percorrido esse longo caminho da macro à micropercepção, deparamo-nos com uma notável pergunta: a cidade sobrevive por meio de sua permanência ou impermanência? 

A cultura da cidade acomoda processos íntimos de adaptação que estão em constante atritamento e movimentação, em consonância com a lei natural do universo. Abraçar a impermanência é entender que nós, as coletividades imprescindíveis, somos parte da vibração – junto ao som dos pássaros, ao grito da terra, ao brilho das estrelas –, para que a ostra, no intuito de se livrar de seus inimigos, acabe por criar sua coleção de pérolas.

Bruna Piantino
Curadora

SESSÃO 1 | A ENGENHARIA REVERSA DA LINGUAGEM

23/09 – QUARTA – 19H – CINE THEATRO BRASIL – TEATRO DE CÂMARA

A engenharia reversa da linguagem se dá pelo processo de decodificação do código-fonte gerado no ato de sua criação. Ao entrar em contato com determinada manifestação artística, o espectador – apto a absorver a lógica, a arquitetura e os padrões subjacentes de um dado movimento ou significação – atua sobre ela numa perspectiva de cocriação. Essa sessão conta com um longa-metragem dirigido coletivamente por Chico Pelúcio, Henrique Vertchenko, Marcos Coletta e Rodolfo Magalhães. Como uma espécie de retroalimentação de processos cênicos, o filme Como Atravessar Paredes: A História do Centro Cultural Galpão Cine Horto narra a trajetória de um dos espaços culturais mais importantes e icônicos de Minas Gerais, com seus núcleos de pesquisa e experimentação apoiados pelo inigualável Grupo Galpão.

Participação especial: Marcelo Castro – ator e diretor teatral | MG

SESSÃO 2 | A TECNOLOGIA DA EXISTÊNCIA

24/09 – QUINTA – 19H – CINE THEATRO BRASIL – TEATRO DE CÂMARA

A tecnologia da existência refere-se à compreensão de que, desde os primórdios, o ser humano e a tecnologia são indissociáveis. No entanto, após algumas eras civilizatórias, esbarramos em obstáculos éticos que indagam se o atual modus operandi das sociedades urbanas – nomeadamente relacionado à mercantilização do solo –, tende a colaborar com o extermínio das 8,7 milhões de espécies que habitam o planeta. Convidamos para essa discussão o curta-metragem experimental Ouro de Tolo Remix, dirigido por Gabriel Afonso; e Maxita, longa-metragem realizado por Mariana Machado e Ana Maria Machado, com participação de Davi Kopenawa e Ailton Krenak.

Participação especial: Elisa Mendes – Diretora e Diretora de Fotografia | MG

SESSÃO 3 | O RESGATE DO CORPO EMOCIONAL

25/09 – SEXTA – 19H – CINE THEATRO BRASIL – TEATRO DE CÂMARA

O corpo emocional está relacionado à nossa forma mais primitiva. Numa era de excesso mental, o resgate do corpo emocional exige uma vitalidade equilibrista fundamental. Em Todas as Cores Que Eu Já Senti Na Vida, de Bernardo Franco, vivemos com seu protagonista as injustiças da precarização do trabalho e a luta pela autoestima. O curta-metragem de Samuel Costa, Recaída, discute nuances relacionadas ao sofrimento mental e à dependência química. Dentro do meu Peito Mora Um Cão, dirigido por Gabriel Afonso, aborda temas como depressão, dúvida, passagem da juventude para a vida adulta e a difícil sobrevivência do artista. Para finalizar, numa espécie de epílogo, todas essas instâncias de instabilidade são substituídas por janelas de completude, precisão de gestos, intimidade, rotina e poder no documentário primoroso realizado por Vinícius Correia, O Maestro.

Participação especial: Higor Gomes – diretor e roteirista | MG

SESSÃO 4 | A NÃO DOMESTICAÇÃO DA EXPERIÊNCIA

26/09 – SÁBADO – 17H30 – CINE SANTA TEREZA

A não domesticação da experiência está diretamente ligada à imaginação e à performance capturada pelo filme Queremos Praia – Anunciação,  dirigido por Chico Pelúcio, Marcelo Braga e Rodolfo Magalhães. Também pode ser vista num ato de surrealismo presente em Metamórfike, de Lui Nascmineto. Faz um questionamento das normas regulamentadoras do trabalho no curta-metragem Sexta, de Pedro Cordeiro. Atende às realidades paralelas que se apresentam em Bloco Fantasma, de Rafael Zorzal. E, por fim, mescla-se às vivências espirituais ancestrais numa fusão sincrética em Cordões e Sinos de Além-mar, dirigido por Yuji Kodato e Jeremias Brasileiro.

Participação especial: Renata Marquez – professora UFMG | MG

SESSÃO 5 | A INTELIGÊNCIA DA BORDA

27/09 – DOMINGO – 18H – CINE SANTA TEREZA

A inteligência da borda atua como uma interface dinâmica que processa as informações do ambiente, regula o sistema imunológico e se reestrutura contínua e ativamente. As periferias que pulsam em suas lutas diárias contra múltiplas violências e tensões sociais, abraçam a cidade como um campo de disputa natural em Mães do Morro, dirigido por Isabela Ferreira da Silva. A discussão abre espaço à vida cotidiana e à cartografia dos afetos em Do Acaba Mundo ao Pindura Saia, curta-metragem de Iakima Delamare e Thiago Rosado. A inteligência sobrevive fluidamente, assim como um encontro de várias águas em Um mar, dirigido por Duna Dias e Leonardo Augusto. Em Não é sobre pastéis, de Tiago Ribeiro, presenciamos uma adaptação constante de forças sociais que se sobrepõem. E por fim, Nós É Ruim E Mora Longe, uma ficção de Ítalo Almeida, retrata os corres que precisam ser feitos pela juventude periférica da cidade.

Participação especial: Flaviana Lasan – curadora e pesquisadora | MG