As homenagens da 20ª CineBH celebram duas trajetórias artísticas fundamentais para a cultura latino-americana contemporânea: a escritora brasileira Conceição Evaristo e a cineasta paraguaia Paz Encina. Em campos distintos, ambas construíram obras marcadas pela relação entre memória, território, linguagem e permanência, transformando experiências individuais e coletivas em criação estética e gesto político.

Ao reunir essas duas homenageadas, a CineBH reconhece artistas que ampliam os modos de narrar e de imaginar a América Latina. Seja pela força da palavra e da “escrevivência” de Conceição Evaristo, seja pela elaboração do tempo, da escuta e das memórias no cinema de Paz Encina, suas obras reafirmam a potência da arte como espaço de preservação, invenção e reflexão sobre o presente.

CONCEIÇÃO EVARISTO – ESCRITORA E ATRIZ

A “FILMEVIVÊNCIA” DE CONCEIÇÃO EVARISTO 

Em “Se Eu Fosse Vivo… Vivia”, a escritora Conceição Evaristo estreia como atriz de cinema ao interpretar Jacira, mulher que compartilhou a vida inteira com Gilberto, vivido por Norberto Novais Oliveira. A presença da mineira diante da câmera amplia os sentidos do filme: Evaristo, aos 79 anos, é uma referência cultural incontornável no Brasil e os temas da passagem do tempo e da permanência dos vínculos presentes no trabalho de André Novais se interligam à própria obra literária da autora. Ela não faz uma participação especial: Conceição Evaristo é a essência, o ponto nevrálgico, a grande presença no filme e no universo afetivo construído por André em vários outros trabalhos. Assim como nas letras da autora, a ficção do cineasta nasce do encontro entre experiências vividas, memórias familiares e a fabulação possível do confronto entre esses processos.

Nascida em Belo Horizonte, Conceição Evaristo, em romances, contos, poemas e ensaios, como “Ponciá Vicêncio”, “Becos da memória”, “Olhos d’água” e “Insubmissas lágrimas de mulheres”, transformou vivências e vozes de mulheres negras historicamente afastadas do centro da representação em força poética. A noção de “escrevivência”, desenvolvida por ela, articula seu poder de invenção às experiências individuais e faz da escrita um gesto simultaneamente pessoal, estético e político. Ao projetar nacional e internacionalmente histórias enraizadas nas periferias de Belo Horizonte e nas trajetórias da população negra brasileira, Conceição tornou-se também uma referência fundamental da cultura mineira, vínculo reafirmado por sua eleição para a Academia Mineira de Letras em 2024.

Sua participação em “Se Eu Fosse Vivo… Vivia” estabelece, assim, um encontro com a produtora Filmes de Plástico que parecia ensaiado desde sempre. Criada em Contagem, a produtora tem construído trajetória marcante e única ao voltar suas câmeras para a vida cotidiana de cidades próximas a Belo Horizonte, a famílias de classe média baixa, a relações familiares e íntimas de personagens negros repletos de carinho e anseios e uma liberdade narrativa e imaginativa como pouco se vê. 

Assim como a literatura de Conceição Evaristo, os filmes do grupo têm densidade histórica e estética a partir de presenças antes reduzidas a estereótipos ou mantidas fora de campo, mas agora colocadas no centro. Ter Conceição Evaristo como atriz em “Se Eu Fosse Vivo… Vivia” aproxima dois gestos criativos tão profundamente ligados a Minas Gerais quanto universalmente compreendidos em sua grandeza, comprometidos com a possibilidade de fazer da “escrevivência” e da “filmevivência” o melhor desse conjunto de artistas.

Marcelo Miranda
Curador da CineBH

PAZ ENCINA – CINEASTA

MEMÓRIAS E FACES DO PARAGUAI NO CINEMA DE PAZ ENCINA

Nascida em Assunção, em 1971, Paz Encina construiu uma trajetória em paralelo à reemergência internacional do cinema paraguaio nas primeiras décadas do século XXI. Ou, mais precisamente, ela foi agente direta desse fenômeno. Formada em Cinematografia pela Universidad del Cine, em Buenos Aires, começou a realizar curtas-metragens ainda nos anos 1990 e trabalhou também com vídeo, instalações e diferentes suportes cinematográficos. Fazia audiovisual num país de produção historicamente descontínua, marcado por isolamento geográfico, sucessivos períodos autoritários e pela ditadura de Alfredo Stroessner, que permaneceu no poder entre 1954 e 1989. Nesse contexto, Encina teve a façanha de uma circulação internacional inédita a uma realizadora paraguaia de sua geração e ainda se tornou figura essencial em questões de como a memória de seu país virou matéria central de seu cinema.

Essa projeção ganhou escala com “Hamaca Paraguaya” (2006), seu primeiro longa-metragem, apresentado na seção Un Certain Regard do Festival de Cannes e vencedor do prêmio FIPRESCI (Federação Internacional de Jornalistas de Cinema). Falado em guarani, o filme acompanha um casal de camponeses idosos que espera o retorno do filho enviado à Guerra do Chaco, conflito histórico que tomou o país entre 1932 e 1935. A situação dramática mínima (duas pessoas, uma rede, a espera, a chuva que não chega, um filho ausente) permite a Encina organizar uma concepção rigorosa de duração, espaço e escuta. 

Os planos fixos e prolongados de “Hamaca Paraguaya” recusam a progressão dramática convencional, e as vozes, frequentemente dissociadas da imagem produzem um tipo de temporalidade na qual presente e passado deixam de funcionar como instâncias separadas. A espera deixa de ser apenas o estado dos personagens: torna-se a própria forma do filme e, em dimensão mais ampla, um caminho de pensar um Paraguai suspenso entre as consequências da guerra, as perdas acumuladas e a falta de resoluções.

A memória constitui um princípio de construção estética no cinema de Encina. Isso se torna especialmente evidente em “Ejercicios de Memoria” (2016), realizado a partir da história de Agustín Goiburú, opositor de Stroessner sequestrado e desaparecido durante a ditadura. Ao recorrer às lembranças dos filhos de Goiburú e aos chamados Arquivos do Terror, Encina não procura reconstituir o passado segundo uma lógica explicativa ou cronológica, mas, antes, trabalha com vestígios: vozes, documentos, objetos, espaços vazios e imagens que sobrevivem às pessoas. A separação entre imagem e som já fundamental em Hamaca Paraguaya adquire aqui dimensão diretamente política. Aquilo que o poder procurou apagar retorna de maneira fragmentária numa uma operação autotal que a solidificou ainda mais no cenário audiovisual. 

Com “EAMI” (2022), vencedor do Tiger Award no Festival de Roterdã, essa pesquisa se desloca para o território e a experiência dos Ayoreo Totobiegosode, povo indígena atingido pela destruição de suas terras ancestrais. O filme incorpora o ayoreo e formas de narração vinculadas à cosmologia desse povo e articula experiência histórica, mito, natureza e memória sem submetê-los inteiramente às categorias narrativas do cinema ocidental. Vista em conjunto, a filmografia de Encina pertence plenamente ao cinema latino-americano contemporâneo, mas escapa de uma definição genérica de “cinema latino”. Sua força está justamente na radicalidade da experiência localizada: Paraguai, suas línguas, guerras, ditadura, povos e silêncios. Nesse aspecto, sua trajetória pode ser aproximada à de Lucrecia Martel na Argentina. Ambas alcançaram posição central no cinema latino-americano das últimas décadas fazendo da especificidade de seus territórios e, sobretudo, da elaboração do som e do extracampo elementos estruturais de uma escrita autoral.

Duas décadas depois de Hamaca Paraguaya e em plena atividade, Paz Encina é simultaneamente uma figura decisiva para a consolidação contemporânea do cinema paraguaio e uma autora cuja obra ultrapassaas fronteiras do nacional. Seus trabalhos circularam por instituições como o Harvard Film Archive, o Berkeley Art Museum/Pacific Film Archive e o MoMA, e ela integrou o Radcliffe–Film Study Center Fellowship, em Harvard, e recebeu, além do FIPRESCI em Cannes e do Tiger Award em Roterdã, o Prince Claus Award. 

A continuidade de suas pesquisas atravessam longas, curtas e instalações e encontra na memória uma forma de interrogar o presente. No cinema de Paz Encina, recordar não é recuperar integralmente o que passou, mas confrontar ausências, escutar o que sobrevive e encontrar uma forma para as narrativas no presente que permanecem.

Marcelo Miranda
Curador da Homenagem e da Mostra Diálogos Históricos