SEMINÁRIO INTERNACIONAL ENTRE CINEMAS ENFRENTA AS CONTRADIÇÕES DA INTERNACIONALIZAÇÃO E PENSA ALTERNATIVAS PARA OS CINEMAS LATINO-AMERICANOS
Publicado em 24 set 2026Debatedores discutem políticas de cooperação e circulação a partir do mercado, labs, espaços de formação, festivais e sobre as possibilidades de sobrevida dos filmes para além deste circuito.
Se as complexidades da internacionalização dos cinemas latino-americanos têm atravessado diferentes instâncias de diálogos durante o Seminário Internacional Entre Cinemas, o debate O cinema latino-americano no mundo: que internacionalização queremos?, ocorrido nesta quinta-feira, 24 de setembro, conseguiu adensar as principais contradições e alternativas que atravessam a circulação de filmes, tanto em fase de desenvolvimento e produção, como no circuito dos festivais. Conduzida por Paulo de Carvalho, produtor e colaborador do Brasil CineMundi, a conversa reuniu os produtores Diego Castillo (Colômbia), Ivette Liang (Cuba, Colômbia), Julia Alves (Brasil) e a crítica Monica Delgado (Peru), que refletiram sobre um equilíbrio entre a ampliação da presença do cinema latino-americano em certos espaços de mercado e visibilidade, sem com isso comprometer singularidades e autonomias criativas. Para isso, rotas alternativas, mais atentas à realidade material, condições de produção e vocações sensíveis de cada obra precisam ser desbravadas.
A partir de sua atuação no lab Nuevas Miradas, plataforma de desenvolvimento da Escuela Internacional de Cine y Televisión de San Antônio de los Baños, Ivette Liang disse priorizar projetos que precisam do impulso e de uma rede de contatos para se viabilizar, o que têm conseguido a partir de estratégias de co-produção com países latinos que têm políticas públicas para o audiovisual mais consolidadas, como é o caso da Colômbia. E ampliar e diversificar possibilidades de co-produção entre esses territórios também implica em expandir uma certa cinematografia para outros países que poderão, talvez mais do que a Europa, saber acolher proposições formais, estéticas e políticas concebidas desde as condições concretas do Sul Global. “Compartilhamos cultura, idioma, o portunhol, uma história que nos une e nos instiga a tentar chegar a essas audiências”.
Julia Alves, que ressaltou a relevância do Brasil CineMundi para sua formação como uma das mais destacadas produtoras do nosso país, corroborou com Liang ao afirmar que a internacionalização começa pelos projetos. “E podemos fazer isso daqui. Não precisamos ir até Cannes para encontrar coprodutores. É muito caro, necessita de logística, de apoio. Internacionalizar nem sempre é sair de onde se está, mas receber. Foi muito forte entender isso”.
Alves ressaltou a importância de políticas de incentivo e fundos que estimulam alianças criativas entre países sem tradição de cooperação, o que pode gerar intercâmbios inesperados e, por isso, frutíferos. Até na ponta da distribuição, por vezes, partir do local para o internacional pode ser uma mudança tática. Alves referendou tal intuição a partir da repercussão bastante distinta de Nosso Segredo, longa de estreia de Grace Passô, no Brasil, mesmo que tenha conquistado notoriedade no Festival de Berlim. “Talvez, para alguns filmes estrear aqui, onde será bem-visto e recebido, pode ajudar a catapultá-lo para outros públicos”, aposta.
“Precisamos entender lógicas da indústria, mas nem sempre obedecê-las”, argumentou Diego Castillo. “Se Berlim, Cannes, Veneza parecem ser lugares mais prestigiosos para os projetos, talvez eventos mais locais permitam uma atenção maior a ele, algo mais próximo, mais único, pode ser melhor para o filme”. O mesmo vale para a cadeia de exibição. A crítica peruana Monica Delgado, do site Desistfilms, ponderou sobre a capacidade de festivais menores de promover encontros mais próximos com os filmes, em contextos nos quais seus processos de elaboração serão apreendidos mais substantivamente.
Delgado também ponderou se a internacionalização também deveria ser encampada como uma política de Estado. No caso do Peru, a jornalista e programadora afirma haver uma anti-política, um estrangulamento de narrativas e imagens comprometidas com a recuperação da memória, nada apaziguada, do país. A internacionalização, sobretudo a que escava caminhos não-hegemônicos para construção e fruição de filmes que também se esquivam de uma gramática dominante, também pode operar como gesto de sensibilização social, cultural e política.
Tais urgências e inquietações retornaram no debate que se seguiu no início da tarde, Documentário em circulação: mercados, festivais e novas redes. Sob mediação de Ivan Melo, as presenças de Luiz González Zaffaroni, diretor executivo do DOCSP, o documentarista Marcos Pimentel, a diretora executiva Paola Castillo Villagrán e o diretor Walter Tiepelmann, do FICBA – International Documentary Film Festival discutiram as especificidades de outras janelas de exibição a partir do recorte do cinema documental – campo que talvez demande lógicas específicas não só de distribuição, mas de análise, contabilização e dimensionamento de seus impactos sobre públicos muito esparsos e diversos. “Vemos uma parte muito pequena de um espectro maior de divulgação e circulação dos filmes”, comentou Villagrán.
E para além dos festivais? Tiepelmann constatou que muitos filmes não encontram sobrevida, algo que se tem que assumir. Em tempos de crise da disposição para a atenção, como capturar atenções dispersas, que agravam um cenário institucional e econômico já ardiloso? Como recriar proximidades com audiências dormentes? “É preciso um eletrochoque para não encontrarmos alguns cadáveres”, afirmou.
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A 20ª CineBH – Mostra Internacional de Cinema de Belo Horizonte e o 17º Brasil CineMundi integram o Cinema sem Fronteiras 2026 – programa internacional de audiovisual idealizado pela Universo Produção e que reúne também a Mostra de Cinema de Tiradentes (centrada na produção contemporânea, em janeiro) e a CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto (que difunde o audiovisual como patrimônio e ferramenta de educação, em junho).
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SERVIÇO
20a CINEBH – MOSTRA INTERNACIONAL DE CINEMA DE BELO HORIZONTE
17º BRASIL CINEMUNDI – ENCONTRO INTERNACIONAL DE COPRODUÇÃO
22 a 27 de setembro de 2026 | PROGRAMAÇÃO GRATUITA
Fundação Clóvis Salgado (Cine Humberto Mauro, Sala Juvenal Dias, Teatro João Ceschiatti e Jardim Interno), Cine Theatro Brasil (Grande-Teatro, Teatro de Câmara, Galerias 5º e 6º andar, Terraço), Cine Belas Artes, Sala de Cinema Minas Tênis Clube, Cine Santa Tereza, Teatro Sesiminas, Casa da Mostra e Praça da Liberdade
LEI FEDERAL DE INCENTIVO À CULTURA
ESTE PROJETO É REALIZADO COM RECURSOS DA LEI MUNICIPAL DE INCENTIVO À CULTURA DE BELO HORIZONTE
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Apoio: CASA DA MOSTRA, CTAV
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