Homenagem

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Foto: Acervo El Pampero Cine

Homenagem: El Pampero Cine
por Francis Vogner dos Reis, Pedro Butcher e Marcelo Miranda

Nessa 12ª edição da Mostra Cine BH – Festival Internacional de Cinema de Belo Horizonte, prestamos tributo a uma obra coletiva que conta com mais de uma dezena de filmes realizados por um grupo de cineastas argentinos desde o início dos anos 2000: a El Pampero Cine, que tem entre seus sócios e cineastas Laura Citarella, Augustin Mendilla, Alejo Moguillansky e Mariano Llinás.

A homenagem se dá no contexto do tema “Pontes Latino-americanas” e contempla, de maneira abrangente e provocativa, o debate sobre o campo cinematográfico latino-americano que envolve discussões sobre produção, distribuição e exibição, por um lado, e sobre estética e processos criativos, por outro, a partir da experiência muito singular desse grupo de cineastas argentinos. O que torna a El Pampero Cine um caso tão especial é a incidência consequente dos modos de produção sobre o resultado formal dos filmes. Segundo o discurso da produtora e dos próprios cineastas, seria preciso abrir mão de vários postulados industriais para qualificar e potencializar a criação.

A apresentação no site da produtora é ousada (e talvez um pouco irônica com as próprias recusas e a ausência de modéstia). Afirmam ser mais que “uma simples produtora”, e sim um grupo de pessoas dispostas a experimentar e renovar as práticas do cinema feito na Argentina com obras que “têm inovado praticamente todos os campos da atividade cinematográfica (...) que não se faz só em nível estético, mas sua revolução alcança – sobretudo – as formas de produção e exibição”. Pela distância e pouco conhecimento de seus filmes no Brasil, ainda não sabemos qual é o alcance e a efetividade obtida pela revolução que sugerem. O fato notório é que o discurso da El Pampero Cine provoca todo o campo cinematográfico, da produção à exibição, e questiona os modos e as prerrogativas que estão colocados nos esquemas consagrados de realização, defendendo o imperativo criativo e estético como o grande motivo de existência dos filmes.

O discurso deles, nesse aspecto, é moderno (no sentido forte de cinema moderno): o processo e a experiência determinam a particularidade do filme, recusando formas industriais tanto nos procedimentos de realização quanto na lógica de existência (circulação e visibilidade) e reivindicando uma apartação (parcial) dos esquemas consagrados.

Se o discurso prático e econômico da El Pampero é “moderno”, também o é o modo como os integrantes se inserem – como diálogo e referência – a uma tradição cinéfila: Roberto Rossellini, Eric Rohmer, Ernst Lubitsch, Charles Chaplin, Alfred Hitchcock, John Ford, Jean Renoir, Robert Bresson e Robert Aldrich fazem parte de um repertório que aparece em suas declarações, em debates ou textos reflexivos sobre os próprios filmes. Não que os filmes da El Pampero Cine se pareçam necessariamente com o cinema desses autores citados, mas eles são importantes na medida em que o cinema moderno mais radical e instigante parte de uma aguda consciência do legado cinematográfico de outras gerações. Não se percebe algo assim na fala e nas ideias de boa parte dos cineastas do Nuevo Cine Argentino, com exceção (parcial) de Lucrecia Martel.

Por estar também sob outra esfera de influências e respondendo ao seu lugar e seu tempo histórico com particularidades nada desprezíveis, a El Pampero Cine se distancia não só em métodos, discurso e economia do Nuevo Cine Argentino das últimas duas décadas, mas também de uma imagem do cinema latino-americano político dos anos 1960 e 1970 que se cristalizou em nossa memória (de brasileiros e latinos). Não há um programa ideológico e de vanguarda nos moldes politizados de parte da geração dos anos 1960 nem falam em nome da América Latina. Por mais que isso possa ser óbvio para alguns, é importante reafirmar essa prerrogativa nessa edição da Mostra CineBH, na qual discutimos o cinema latino-americano. A homenagem à El Pampero Cine nos interessa no contexto da temática “Pontes Latino-americanas” porque desloca a discussão das condições, soluções, ideais, economia e imaginário do cinema para outra seara que não à da tradição dos novos cinemas, ainda que os constrangimentos históricos do subdesenvolvimento (hoje, na presença do neoliberalismo) nos atinjam a todos e de diversas formas – no regime de trabalho, na economia do tempo e nos modos de produção criativa.

Vemos o diálogo com a experiência da produtora como fundamental em suas possíveis distinções e necessárias aproximações com o nosso cinema, não para reproduzir um método nem forçar uma identificação, mas para pensar soluções e alternativas aos modelos mais consagrados de produção, criação e distribuição que se consolidaram nos últimos vinte anos. Entendemos que o “rechaço aos predicados industriais” da El Pampero Cine não é exatamente um programa político no sentido meramente ideológico, mas uma libertação criativa. Os “modos industriais” não são somente o paradigma de Hollywood, mas os paradigmas que criamos localmente também, e que possuem um resultado bem visível nos filmes, mesmo nos filmes de “cinema de autor”. A experiência dos filmes da El Pampero Cine reconfigura em termos concretos o que é “cinema independente”. Nada revolucionário, mas absolutamente franco.

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Foto: Acervo El Pampero Cine

Trazer dignidade ao termo “cinema independente” não é qualquer coisa, ao passo que hoje todos são “independentes”. Ora, independente exatamente do quê? De Hollywood e dos grandes sistemas de produção, tal como se definia “cinema independente” para John Cassavetes? É evidente que não é tão simples. Hoje ser cinema independente quer dizer o quê? A dependência pode ser tanto dos grandes esquemas como também dos pequenos e médios esquemas de produção que, na sua economia de tempo, tendem a padronizar métodos de trabalho, impor compromissos comerciais (seja com o grande circuito do mercado exibidor, seja com o pequeno circuito dos festivais e das salas arthouse) e automatizar códigos e dramaturgias.

Em 16 anos, a El Pampero Cine realizou 13 longas-metragens fora dos meios de financiamento tradicionais: quatro filmes assinados por Alejo Moguillansky, três por Laura Citarella e mais quatro por Mariano Llinás, muitos desses com eventuais colaboradores (Verónica Llinás, Fia-Stina Sandlund, Ignacio Masllorens), além de outros dois filmes (El Amor: Primera Parte e Opus) assinados por diretores que não integram a produtora. Augustin Mendilla, o quarto sócio, não dirigiu filmes pela El Pampero, mas fez a fotografia de alguns títulos como Opus, de Mariano Donoso; Histórias Extraordinárias, de Mariano Llinás; e El Escarabajo de Oro, de Alejo Moguillansky e Fia-Stina Sandlund.

O que chamou atenção da curadoria da CineBH para a El Pampero foi, principalmente, La Flor. Na edição passada, em 2017, tentamos trazer a primeira parte do longa-metragem de Mariano Llinás que havia sido exibida no Festival de Roterdã como um “work in progress”. Não conseguimos, pois o diretor só iria apresentar o filme novamente quando as duas outras partes estivessem prontas. Neste ano de 2018, o filme se concluiu, e sua versão integral conta quase 14 horas – uma hora mais longo que Out 1 (1971), de Jacques Rivette, e uma hora e meia mais curto que Berlim Alexanderplatz (1980), de Rainer Werner Fassbinder. A diferença é que tanto o filmes de Fassbinder quanto o de Rivette são divididos em episódios de mais ou menos uma hora, enquanto a obra de Llinás tem somente três partes, todas extensas mesmo para um filme de duração regular. La Flor começou a fazer o circuito dos festivais em 2018, tendo ganhado o Hubert Bals Fund Audience no último Festival de Roterdã e escolhido como melhor filme no BAFICI em Buenos Aires.

 

O que é notável, para além da duração e seu processo de produção de quase dez anos, é a ousadia de um projeto como La Flor gerir o tempo de uma maneira que não tenta se conciliar com as demandas céleres do mercado e de uma noção estreita de profissionalismo. Quantos festivais vão querer exibir um filme de 14 horas? Como essa duração vai circular? Como produzir com orçamento baixíssimo algo de tal dimensão?  Por que um filme precisa ter essa duração e esse tempo de produção? Uma resposta conservadora poderia dizer que estamos diante de uma produção “não profissional”, que rejeitaria os imperativos do funcionamento industrial (no qual a equipe trabalha dividindo funções pontuais, com cada um na sua, à parte do funcionamento de todo o processo criativo). O nome que se dá a isso é “trabalho alienado”. Já uma resposta não conservadora também apontaria uma produção “não profissional”, porém sob o ponto de vista de uma realização que rejeita os imperativos do funcionamento de uma produção com a economia de tempo industrial e na qual a equipe trabalha de maneira um pouco mais horizontal, por dentro do processo criativo e que demanda outro tempo que não o da celeridade industrial e do mercado.

No campo cinematográfico tal como ele existe, podemos apontar uma contradição: como trabalhar em tal regime de tempo em um universo que trabalhadores do setor audiovisual precisam pagar suas contas? Boa pergunta que precisa ser feita, bem como a provocação que gera essa pergunta necessita existir em nome da sobrevivência da própria integridade do cinema como modo de expressão. Os integrantes da El Pampero declaram, em entrevista realizada para esse catálogo, que não vivem da atividade cinematográfica da produtora. Ou seja: é algo coerente com suas escolhas e seu discurso. Resta saber com mais precisão como funciona esse sistema que se faz à revelia dos métodos profissionais tradicionais – e por isso convidamos a produtora e cineasta Laura Citarella para uma masterclass, em que todos esses aspectos serão abordados e discutidos.

O empreendimento não é só admirável como absolutamente vital para a sobrevivência do cinema – não enquanto indústria, mas enquanto expressão criadora de sentido.  É preciso abrir esse debate. Ter a El Pampero Cine como interlocutora na CineBH é um privilégio e um prazer.


EL PAMPERO CINE

Fundada em 2002 em Buenos Aires, Argentina. Mais do que uma simples produtora, é um grupo de pessoas que deseja levar experimentação e inovações aos procedimentos e práticas relacionados a fazer cinema na Argentina. Como parte do formidável renascimento conhecido como Nuevo Cine Argentino, trazendo filmes como Mundo Grúa, de Pablo Trapero, A Liberdade e Os Mortos, de Lisandro Alonso, e Los Guantes Mágicos, de Martín Rejtman, a produção da El Pampero Cine tem visto alguns dos filmes mais originais e celebrados dos últimos dez anos. Filmes que têm levado inovação para praticamente todas as áreas da atividade cinematográfica.

A influência da El Pampero Cine não é vista apenas em um nível estético. Acima de tudo, a revolução leva em conta como os filmes são produzidos e exibidos. Desde o lançamento de Balnearios, em 2002, a El Pampero Cine desenvolveu um sistema de produção que rejeita as ideias de filmes industriais e adota uma independência radical das fontes convencionais de financiamento, permitindo uma produção constante e fértil. Com Histórias Extraordinárias (com uma duração de quatro horas, incluindo cenas filmadas na África, reconstruções da Segunda Guerra Mundial e cenas épicas com leões no meio da Província de Buenos Aires) ficou claro que a El Pampero Cine havia imposto na Argentina uma nova maneira de produzir filmes, trabalhando com orçamentos nitidamente inferiores ao menor orçamento industrial, sem que essas condições inferiores afetassem de qualquer forma a qualidade técnica e estética de seu trabalho. A El Pampero Cine é formada por Mariano Llinás, Laura Citarella, Agustín Mendilaharzu e Alejo Moguilansky e participa desde 2002 na criação de mais de dez longas-metragens.

Veja a filmografia completa da produtora em: www.elpamperocine.com.ar